quarta-feira, 27 de abril de 2011

Mães costuram leitura para os filhos

Matéria publicada em 24/04/2011


Projeto-piloto em Arapiraca incentiva mulheres a produzir livros de pano para alunos de escolas públicas e creche

David Salsa
Repórter

Arapiraca (Sucursal) – O gosto pela leitura é incentivado cada vez mais cedo em Arapiraca. Um projeto-piloto está despertando nas mães dos alunos o amor pela leitura através de um ofício que a maior parte delas aprendeu com suas avós, a arte de costurar.

A iniciativa tem o objetivo de envolver as mães dos alunos com a produção de livros de panos e de materiais acessíveis às crianças que estudam nas escolas da rede municipal de ensino e, também das creches mantidas pela prefeitura.

As oficinas tiveram inicio no último mês de março, com a participação de 33 mães de alunos que estudam na Escola de Tempo Integral Zélia Barbosa Rocha, localizada no bairro Nova Esperança, na periferia da cidade.

No estabelecimento estudam cerca de 500 alunos e a idéia é que as mães das crianças aprendam a produzir os próprios livros.

ETAPAS

Nessa primeira etapa do projeto, duas educadoras-monitoras repassam os conhecimentos nas oficinas técnicas, enquanto uma contadora de estórias estimula a criatividade das alunas.

Como parte do trabalho, a prefeitura adquiriu três máquinas de costura e todo material, incluindo tecidos, linhas, agulhas e outros produtos necessários para a viabilização do projeto.

“Nossa proposta é incentivar a prática da leitura entre mães e alunos, com muita criatividade e imaginação, além, de , num futuro próximo, estimular a criação de uma cooperativa para a geração de renda com as mães que residem na comunidade”, revela a bibliotecária Wilma Nóbrega.

Ela também adianta que o projeto inclui a instalação de bebetecas em cada escola e nas creches, com o objetivo de estimular o gosto pela leitura em crianças de até cinco anos de idade.

Para Wilma Nóbrega, o projeto vai além do ato de costurar e produzir livros.

“ Essa iniciativa permite que as mães possam interagir com a educação de seus filhos e os filhos de outras pessoas, fortalecendo ainda mais o gosto pela leitura e, conseqüentemente, a qualidade do ensino e do aprendizado”, acrescenta.

À MÁQUINA

Arte da costura já está mudando histórias de vida em Arapiraca

A dona-de-casa Cicera Souza Moraes, 28, casada e mãe de um filho menor de nove anos, acredita que o projeto pode mudar a sua própria história.

Ela conta que, antes de fazer parte do projeto, sabia pouco da arte da costura. Cicera Souza Moraes também revela que os afazeres domésticos tomavam todo o seu tempo e não sobrava tempo para ler livros ou ouvir estórias.

“Agora, resolvi mudar a minha história. Estou aprendendo novidades e quero aproveitar essa oportunidade para fazer mais coisas e ganhar algum dinheiro com a arte da costura em livros e ajudar no sustento de minha família”, comenta a dona-de-casa.

Toda a produção de livros de pano, confeccionada pelas 33 mães da Escola Zélia Barbosa Rocha, será apresentada à sociedade de Arapiraca, no próximo sábado(30), em solenidade marcada para a Praça Luiz Pereira Lima, no centro da cidade.

Após o lançamento oficial do projeto, a idéia é levar a iniciativa para as outras sete escolas de tempo integral que funcionam na área urbana e, também, na zona rural do município.

Hábito da leitura pode ser adquirido em qualquer idade; quer tentar?

Ligia Sanchez

Experiências de programas de incentivo à leitura mostram que o primeiro passo é cativar o potencial leitor, o que se faz com uma proposta desafiadora. "Depois da aproximação, as pessoas são capazes de apreciar a leitura e se interessar por diferentes gêneros”, afirma Maria Alice Armelin, do Cenpec - Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária.

Para aqueles que acabaram criando aversão a ler, Silvia Colello afirma que é possível reverter este quadro com a própria magia da leitura. “Um exemplo foi o fenômeno que aconteceu há pouco tempo, da série de livros do Harry Poter, que atraiu milhões de crianças que não liam para a leitura. O importante é embarcar na grande aventura de ler”. Silvia é professora da Faculdade de Psicologia da USP e autora do livro “Textos em Contextos – Reflexões sobre o ensino da língua escrita".

Incentivo na infância é importante

Adquirir o hábito da leitura é um investimento a longo prazo, que se inicia muito cedo na vida das pessoas. "Sem prejuízo da atividade oral de se contar histórias sem livros, é importante ler para crianças desde muito pequenas. E não deve ser abandonada quando ela aprende a ler na escola", afirma a família tem papel crucial na formação do hábito de leitura. A maioria das pessoas que gostam de ler dizem que os pais foram quem mais as influenciou a tomar gosto pela coisa, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. “Isso nos leva a explorar a importância do exemplo, lendo na frente das crianças e para elas, mostrando os conhecimentos que foram adquiridos e a contribuição para sua formação profissional”, afirma Zoara Failla, gerente de projetos do Instituto Pró-Livro.

A pesquisa também mostra que as pessoas preferem ver TV, ouvir música ou simplesmente descansar em seu tempo livre. Como estimular a leitura em um ambiente dominado pela televisão, rádio e internet? Segundo Silvia Colello, a leitura não concorre com outras linguagens, é complementar. “Mesmo na TV aparecem coisas escritas. A leitura acaba enriquecendo e é enriquecida pelas outras linguagens, isso faz parte da pluralidade em que aparece no cotidiano.”

Confira dicas para estimular o hábito da leitura
  • Escolha um assunto que seja interessante para você. Não adianta brigar com as nossas preferências - se você não tem o costume de ler, não adianta tentar começar com O Banquete, de Platão. Gosta de futebol? Que tal começar pela biografia de um grande jogador? Se você ama gatos, talvez um belo exemplar sobre a vida e os hábitos dos bichanos seja sua melhor pedida 
  • Não gostou do livro que começou? Troque! Por que insistir num título que já desagradou nas primeiras páginas. Não se force a nada - pelo menos quando estiver tentando entrar no mundo da leitura
  • Se você prestar atenção, a escrita está em todo canto. É importante mostrar para as crianças o que os educadores chamam de ''função social da escrita''. Faça a lista de supermercado, deixe bilhetes, mostre o letreiro dentro do elevador...
  • Revista de fofoca, bula de remédio, embalagem de alimento, gibi, manual de celular. Vale tudo para iniciar o hábito de ler: a dica não é apenas para os temas, mas também para os tipos de ''obras''
  • Descubra quando, onde e como você gosta de ler. Toda forma é válida: em silêncio, deitado, no ônibus, ouvindo música... Cada um tem uma preferência. Pode ser até um exercício de autoconhecimento
  • É de pequenino... que se forma o hábito da leitura. Se você tem filhos ou convive com crianças, dê uma forcinha: leia com elas, leia para elas, peça para elas lerem. Tudo isso, lógico, de acordo com o conhecimento delas, a idades e os temas que interessem
  • Essa é para os educadores: na escola, a leitura não pode ser apenas por obrigação. Reserve espaço no cronograma para que os estudantes possam escolher os livros que preferem (adequando o grau de complexidade). Você vai perceber que eles começarão a desenvolver critérios para as escolhas e tendem a ser tornam bons leitores quando adultos
  • Frequente bibliotecas. Livro de papel é caro e ocupa espaço - pegar títulos emprestados pode ser uma boa opção para quem está começando. Outra dica são sites que disponibilizam obras para serem baixadas (de graça), como o Cult Vox 

A nova classe leitora

Matéria publicada em 26 de abril de 2011

Willian Vieira

Maria josé Rodrigues, de 48 anos, e as amigas da associação de mães do Parque Santa Rita, na zona leste de São Paulo, descobriram que são o retrato da nova classe média – os 20 milhões de brasileiros que testemunharam, nos últimos dez anos, o avanço da renda e do crédito e agora são perfilados como classe C. Elas ganham de dois a quatro salários mínimos, têm cartões de crédito e três, quatro tevês. Mas há um item a mais nessa lista que aponta para uma ascensão social diferente, incomum a quem vem de famílias com pouca formação escolar. Elas leem. E compram os próprios livros.

“Um dia eu ia comprar um cosmético, vi o livro no catálogo e me interessei”, diz Maria. Ela comprou o exemplar da revendedora que bateu na porta de casa, fenômeno recente que traduz uma nova situação para o mercado livreiro. O bairro dela não tem livraria. Quando a opção chegou tão perto, Maria aceitou. “O título me atraiu, sobre como lidar com pessoas difíceis. Era o que eu precisava. Então comprei.”

Em um país onde a leitura é somente a quinta atividade de lazer nas pesquisas e três em cada quatro pessoas não vão a bibliotecas, a compra de Maria mostra que as coisas começam a mudar. Como o índice de leitura acompanha o aumento da educação formal, que caminha com a alta da renda, a leitura surge para esses novos consumidores. O número de livros lidos por habitante saltou de 1,8, em 2000, para 3,7, em 2007, segundo a pesquisa Retratos da Leitura, do Instituto Pró-Livro, de 2008.

O Brasil já é o 11º mercado de livros do mundo, de acordo com pesquisa divulgada nesta semana na Feira do Livro de Londres. E, segundo o mais recente levantamento da Fipe para a Câmara Brasileira do Livro, do ano passado, o mercado editorial cresceu 13,5% em volume de exemplares entre 2008 e 2009. Faturou quase o mesmo. Os livros é que estão mais baratos, graças à política de desoneração do governo e à queda do dólar.

A demanda é óbvia: segundo a pesquisa, 43% dos que dizem ler livros são da classe C, mas só 48% deles compram livros. Na classe A, são 73%. Se os outros 52% da classe C passarem a comprar, a mágica está feita. O mercado já percebeu isso. A Paulus, por exemplo, lançou uma coleção de infantis a 5 reais,- em razão “do aumento da procura- por essa classe C”, segundo o presidente, Zolferino Tonon. Fora o boom de livros de bolso e edições mais simples que a maioria que as editoras tem lançado, de olho em gente com formação e renda cada vez mais sólidas.

“Tome-se o universitário de faculdade barata: ele não vai comprar A Bíblia do Marketing, que custa 169 reais, mas, com certeza, vai comprar um livro para ajudar na carreira por 15 reais”, diz Ednil-son Xavier, presidente da Associação Nacional de Livrarias. Juliana da Costa, de 26 anos, confirma a tese. Moradora da zona leste, a 40 quilômetros das maiores livrarias da cidade, a estudante de Administração passou a comprar livros a pedido do professor. “Não tenho tempo de ir à livraria, então compro no catálogo mesmo.” Ela comprou O Monge e o Executivo, adorou e quer mais.

“O que importa é que estamos conseguindo contemplar esse público”, afirma Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional de Editores de Livros. Dois elementos sinalizam isso. Primeiro, os filões que mais cresceram foram o religioso, o de autoajuda e os técnicos, além dos infantis – acessíveis e comprados- em massa pelo governo. Segundo, o tipo de venda que mais se expandiu foi o porta a porta, que cresceu perto de 13% em três anos, superando a internet.

Como as livrarias ainda se concentram nas áreas nobres das cidades, esse público compra livros em feiras, no porta a porta, em supermercados e nos catálogos, para alegria da Avon, que descobriu no clássico público que adquire seus produtos de beleza mulheres sedentas por leitura barata e com temas afins. Com fonte menor e papel simples, os livros são mais baratos. Caso do Crepúsculo nas mãos de Valdenice Barca, de 37. “Só compro em livraria se for no shopping. Mas quando abro o catálogo e acho algo, compro.” Já foram nove livros, que ela troca com as amigas, num improvisado clube de leitoras.

O que a classe C busca? “São livros de autoajuda, religiosos, receitas, romances femininos e cada vez mais literatura, mais best-sellers”, conclui Jardim.

Mas o impacto dessa nova classe de leitores no país ainda não é claro. O governo aposta que o aumento da escala barateará os livros, incentivando a leitura. Ao implantar o programa do livro popular, o objetivo é chegar a títulos abaixo de 10 reais. Seria algo como a Farmácia Popular. O MinC estuda linhas de crédito para tais livrarias. A contrapartida seria exigir, nos editais de compras para bibliotecas, o fornecimento dos títulos pelos mesmos preços no mercado. “Assim traremos o livro para a cesta básica da classe C”, diz Galeno Amorim, à frente da Fundação Biblioteca Nacional. “Mas o governo não vai interferir no que as pessoas devem ler. É o mercado que decide o que quer vender e as pessoas, o que comprar.”

Amorim contemporiza. “Claro, quando o Estado compra títulos, leva em conta critérios do que deve haver na biblioteca, incentivando a qualidade do que chega ao mercado. Mas o kit é variado e inclui a demanda dos leitores.” E tem o vale-cultura, incentivo de 50 reais aos trabalhadores para gastar com cultura, cuja aprovação no Senado é esperada pelo MinC. A cifra alcançaria 7 bilhões de reais ao ano. Se uma parte for endereçada a livros, já seria um novo boom.

Nem todos, porém, são tão ufanistas. “Existe um mercado potencial enorme, mas não há garantia de que o aumento de renda vai se refletir em leitura”, diz Milena Duchiade, diretora da Associação de Livrarias do Rio de Janeiro. “Uma livraria pequena tem 5 mil livros no catálogo. A Avon tem dezenas. Como ficam as escolhas?” Dona de livraria, Duchiade dá um exemplo da pouca diversidade da demanda. Com os vouchers recebidos pela prefeitura, professores cariocas podem comprar livros. “Mas é sempre autoajuda ou religiosos. Isso não é ruim. Mas precisamos diversificar a leitura.”

Para o antropólogo Felipe Lindoso, é natural o boom de livros religiosos. Como o tema agrada e eles são vendidos em livrarias, igrejas e supermercados, garantem-se escala, preço e acesso. “O bom livro é o que a pessoa quer ler.”

Que o diga a assistente social Giane Gouveia, de 40 anos. Quando ela entra numa livraria, busca livros sobre a profissão, autoajuda e espíritas. “Busco coisas que atendam às minhas inquietações. Já cheguei a gastar 400 reais com livros, mas eram de áreas que me interessavam.” O que importa, diz, é que as pessoas buscam respostas para seus problemas na leitura. “Assim, ganham uma perspectiva mais ampla”, diz Lindoso, autor de O Brasil Pode Ser um País de Leitores? “E pode ser, com certeza. Só não vai ser dos livros que os intelectuais querem.”

terça-feira, 26 de abril de 2011

Iniciação à leitura

Matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo, 26 de abril de 2011

ROSELY SAYÃO

'Criar o hábito da leitura' já perdeu o sentido. Queremos que as crianças leiam por prazer ou por costume?

CRIANÇA PODE adorar livros e histórias, desde que os adultos não atrapalhem. E como temos atrapalhado o que poderia ser uma verdadeira paixão pelos livros!

Ler é bom, precisamos formar leitores, a vida sem a literatura não teria graça, temos de incentivar o hábito da leitura nas crianças e nos jovens etc. Afirmações como essas brotam da boca de pais e de professores assim, sem mais nem menos.

Temos gosto em pegar frases e repeti-las muito, até que elas percam seu sentido, não é verdade? Assim aconteceu com essas e outras afirmações que tratam da importância da leitura na vida dos mais novos: tanto fizemos que conseguimos esvaziar o que elas dizem.

Primeiramente quero falar dessa expressão horrorosa: "Criar o hábito da leitura". Ah! Vamos aproveitar e lembrar outra semelhante: "Criar hábito de estudo".

Nós queremos que as crianças tenham prazer com livros e histórias ou queremos que adquiram um hábito?

Leitura, tanto quanto estudo, não deve ser tratada assim. Um hábito se instala e pouco -quase nada- acrescenta à vida de uma pessoa.

Já o amor, o prazer, o gosto verdadeiro pela leitura ou pelo estudo são capazes de mudar a nossa vida. Ler e estudar devem ser uma escolha, uma vontade, uma busca por algo que não se tem.

O bebê já pode ser introduzido ao mundo dos livros e da leitura. Pais e professores podem começar contando histórias e oferecendo livros para que ele manuseie, explore, se entretenha com esse objeto. E não precisa ser livro de plástico, que produza som ou coisa semelhante. Livro de verdade mesmo, de papel, com figuras bonitas e letras, encanta o bebê.

O escritor Ilan Brenman, apaixonado pela literatura, afirma que um requisito importante para iniciar as crianças no universo da leitura é a beleza do livro. Sim: uma capa bonita já chama a atenção da criança, tanto quanto as ilustrações. Aliás, muitos livros sem palavras são lidos pelas crianças com a maior atenção.

Ainda falando de bebês e crianças muito pequenas: o papel do livro, suas diferentes texturas, odores e cores também já são alvo da curiosidade delas e objeto de pesquisa concentrada.

E o que dizer de livros de histórias que crianças já conhecem e adoram -"Peter Pan" e "Alice no País das Maravilhas", por exemplo- com adaptação em "pop-up"? Imperdíveis, já que encantam crianças e adultos.

Não devemos menosprezar as crianças quando o assunto é história: elas não gostam apenas daquelas que foram escritas para as crianças. Toda a literatura, principalmente a clássica, pode ser oferecida, sem censura.

Tornar a leitura um ato obrigatório é uma dessas manias que nós adotamos com as crianças que prejudicam a descoberta que elas poderiam fazer do prazer da leitura. Tudo bem: isso pode ser feito como tarefa escolar, mas depois, bem depois de oferecer a elas a oportunidade de ler por gosto e não por obrigação, no fim do ensino fundamental, por exemplo.

Finalmente: a literatura não deve servir para moralizar a vida dos mais novos.

Nada de contar histórias que só servem para tentar "ensinar" a criança a ter bons modos, escovar os dentes etc. A educação moral e para a higiene, por exemplo, deve usar outros recursos.

Que tal um programa com seu filho? Visitar uma biblioteca ou uma livraria para procurar um livro bonito e gostoso de ler e de ouvir?

Certamente você e seus filhos irão aprender muito sobre a vida e sobre vocês mesmos nesse programa. E boa viagem!

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Por prazer ou por obrigação

Daisy Trombeta

Não adianta torcer o nariz. Desligue a televisão, abaixe o som, abra um livro e se deixe levar pela história ali contada. Se você é daqueles que escova os dentes na frente do computador, não tem problema. A internet oferece boas opções de leitura

Seja por prazer, seja por obrigação, uma coisa é certa: ler é uma necessidade básica de todo vestibulando. Para tornar a tarefa menos dolorosa, o segredo é reservar um tempo, todos os dias, para mergulhar nas histórias. O ideal é desligar os aparelhos eletrônicos e voltar a atenção somente à construção dos textos, sem esquecer de observar a parte gramatical.

A fórmula nem sempre será agradável. O importante é aguçar a criatividade e nunca esquecer de estar atualizado. Além dos livros, é importante dedicar um tempo aos jornais, aos sites e às revistas.

Conforme Adriana Lebkuchen, professora de gramática e produção de textos em Joaçaba, no Meio-Oeste, para manter o gosto pelas histórias é preciso tornar a companhia dos livros um hábito. A imaginação é desenvolvida desde cedo, ainda na infância. Mas quem pulou alguma das etapas, deve ler “mesmo que seja por obrigação”.

Na infância, o encanto começa pelo visual, passa para o concreto e estaciona na imaginação. Quem não teve o incentivo dos pais e dos professores precisa trabalhar mais os estímulos.

Começar lendo títulos do momento pode ser um segredo para criar gosto pela atividade. Quem não desgruda do computador, tem a opção de acessar os arquivos digitais ou os sites de notícias. Tudo vale para incrementar o vocabulário.

Nada disso deve ser feito com desatenção, segundo a professora de gramática. É bom que a leitura seja contextualizada com os dias atuais. Uma das consequências da falta de gosto pelas páginas literárias é a dificuldade de interpretação.

Adriana explica que um livro pode ser comprado somente pelo título atraente. E deve ser observado como um produto de desejo.

– Quem não gosta de ler, deve passear em uma livraria como se fosse ao shopping. Olhar para os livros como olha para um sapato e comprar nem que seja pelo título – diz.

Caso nada disso funcione, o jeito é ler por obrigação. E isso deve começar com antecedência. Para quem vai prestar vestibular, por exemplo, a literatura brasileira terá de virar companheira de rotina pelo menos um ano antes da prova.

Manual de leitura para o vestibulando

Sérgio Murilo Machado, professor de literatura e língua portuguesa do Colégio Catarinense, fez uma espécie de manual de leitura para o vestibulando. Leia atentamente e aproveite. Ainda dá tempo de se preparar.

O QUE LER

Tudo o que puder. Não siga apenas uma linha. Leia romance, contos, reportagens e até gibi.

O QUE PRIORIZAR

Comece lendo as leituras obrigatórias do vestibular, principalmente se não tem o hábito da leitura. Lembre-se: o tempo é curto.

A ESTRATÉGIA PARA LEITURA

Quanto à leitura obrigatória para o vestibular, comece pelos mais fáceis. Quem vai fazer o concurso da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), por exemplo, pode iniciar pelo 13 Cascaes. É um livro de contos, que fala sobre a cultura mané. Da até para ler um conto por dia.

COMO LER

O ideal é ler, marcar as passagens importantes e fazer um fichamento. Então, no fim do ano, é só ler os resumos e os fichamentos.

ALÉM DA LITERATURA

Leia jornais e revistas, pelo menos uma publicação por semana. Os jornais de domingo, por exemplo, fazem um resumo da semana e já falam sobre o que vai acontecer nos próximos dias.

O QUE É IMPORTANTE LER NOS JORNAIS

Prefira os assuntos que te aguçam a curiosidade. Mas não deixe de fora política, economia e atualidades. Os vestibulares cobram cada vez mais atualidades e questões interdisciplinares.

PARA LEMBRAR

A catástrofe no Japão, junto com todas que estão acontecendo. A questão ambiental está muito forte. As mudanças do mundo Árabe e as crises financeiras também tem que serem analisadas.

Matéria publicada em 20/04/2011

Ler é lição que vem de casa

Crianças e adolescentes formam a maior parcela de leitores no Brasil


Carlos André Moreira e Paulo Germano

A situação do livro no Brasil é crítica, a juventude não lê nada, a escola não ajuda, os brasileiros leem pouco. Os exemplos acima são lugares-comuns repetidos exaustivamente quando o assunto em pauta é o índice de leitura dos brasileiros. Para choque dos alarmistas, quase todos estão errados: crianças e adolescentes formam a maior parcela de leitores no Brasil. Em parte, graças à escola. E sempre com apoio fundamental da família.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, divulgada há alguns meses pelo Instituto Pró-Livro, entidade que congrega instituições do setor, como a Câmara Brasileira do Livro, colocou pela primeira vez em termos científicos noções que até ali eram apenas intuídas, e permite uma ampla gama de abordagens a problemas envolvendo a disseminação do livro no Brasil. No mês em que se comemoram o Dia Internacional do Livro e o Dia Nacional do Livro Infantil, a pesquisa apresenta dados que, se estão longe do ideal, mostram um quadro menos pessimista.

– O índice de leitura no Brasil é muito melhor do que se esperava, porém ainda aquém do que se poderia chegar. Mas há notícias boas. Somos um país de 95 milhões de leitores – e dois terços deles vêm da escola. A leitura na infância está sim, ocorrendo. – comenta Galeno Amorim, coordenador da pesquisa.

Outro clichê recorrente quando se trata do assunto são críticas ao papel da escola como formadora de leitores, e elas são, sim, em parte justificadas. As pessoas leem na escola e abandonam o hábito à medida que se afastam dela – o que talvez falte seja a capacidade de envolver a leitura não apenas na aura de obrigação, e sim de encantamento, algo que passa pelo ambiente familiar. Tanto que a maioria dos que se definiam leitores na pesquisa (ou seja: que haviam lido um livro nos últimos três meses antes da entrevista) tinham como lembrança o incentivo da mãe e situações em que os pais liam para eles na infância. A consolidação do aprendizado da leitura se dá em casa.

– O nosso imaginário da leitura tem como referência a família. O professor pode ser bom, mas o que fortalece o ambiente de leitura é a ação dos pais – comenta Regina Zilbermann, professora de Letras na UFRGS.

Com ela, concorda o psicanalista e escritor de obras voltadas para crianças e adolescentes Celso Gutfreind. A leitura, na infância, precisa começar como uma curtição em grupo, segundo ele:

– Ler é ter prazer com a imaginação. E a imaginação não é algo que se desenvolve sozinho – ressalta Gutfreind.

Quem não lê é o adulto

Crianças em idade escolar normalmente leem mais do que os adultos por três fatores: crianças e jovens têm mais tempo livre, precisam ler por exigência da escola e nela têm mais facilidade de acesso aos livros. O grande nó está em como fazer essa população escolar continuar lendo depois de sair do colégio.

– A pesquisa mostrou que essa mesma escola ainda falha na tarefa de formar leitores para a vida toda. – diz Galeno Amorim, diretor do Observatório do Livro e da Leitura e coordenador da pesquisa do Instituto Pró-Livro.

Há mais de uma razão para isso: a entrada no mundo profissional reduz o número de horas livres para a leitura, e a própria relação do aluno com a leitura na escola é associada com uma experiência obrigatória, a ser abandonada na primeira oportunidade.

– Sempre se diz que o jovem não lê, mas o que se vê é que o jovem lê, quem não lê é o adulto – ressalva Amorim. – Quando você pergunta aos estudantes a que associam os momentos de leitura, 60% diz que associa com prazer, e só 32% falam que associam com obrigação. O jovem gosta de ler, tem de ser é seduzido do modo certo.

A região sul tem a maior média de livros lidos por habitante, e o Estado tem uma boa média de leitura em comparação com os demais, 5,5 livros por habitante ao ano. Já a região "Noroeste" do Rio Grande do Sul apresenta o maior índice de leitura de todo o Estado: 6,6 livros por ano – e não por acaso é a área que inclui Passo Fundo, mostrando que duas décadas de Jornada Nacional de Literatura tiveram efeito positivo na formação permanente de leitores. Com política séria, os efeitos aparecem.

Matéria publicada em  27/04/2009

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Livro ilustrado para que mesmo?

Não só de beleza vive um livro infantil com ilustrações. Ali tem história contada, arte representada e referência estética sendo construída


Um dos grandes fenômenos que acontece aqui literalmente no meu cantinho na CRESCER é o aumento da quantidade de livros infantis divulgados. Vocês nem imaginam como sou cercada de exemplares para todos os lados, o que me dá vantagens como mais armários, mais caixas, etc. Mas o melhor disso tudo é que nos últimos meses eu lutei para escolher os livros que saem na edição de CRESCER impressa. Vida dura esta minha...

E o mais impressionante é como a ilustração vem garantindo seu lugar. As referências hoje estão por toda a parte. Ah, não venha me dizer que não sabe o que é um bom livro. Porque vivemos – ainda bem – uma fase que vai além do “livro mais bonito” ou do “livro melhor produzido”. Hoje as belezas estão nas propostas, na criatividade da ilustração e, claro, no projeto gráfico.

E por que temos de celebrar essa atenção merecidamente dada ao pincel (lápis, carvão, o que seja) do ilustrador? Porque é uma maneira de todos nós termos melhores encontros com a arte. O que temos à disposição não é pouco. De traduções a premiados brasileiros – como Roger Mello, Eva Furnari, Fernando Vilela, Graça Lima - estamos diante de um leque que nos oferece muito mais do que opções: nos dão poesia, aguçam a imaginação e ampliam nossa referência estética, ou seja, as possibilidades que as artes plásticas nos provocam.

Passear por isso é tão importante quanto ler histórias com as quais a criança se identifique, se emocione, se divirta, se entenda. Os livros infantis hoje compensam nossa falta de contato com essas artes de um modo geral e precisamos deixar claro às crianças.

Se ainda é surpresa o que eu estou falando, dê um pulo em uma livraria mais próxima. Pegue um livro que chame a atenção. Acaricie a capa. Observe se é capa dura ou não, como é apresentado o título, o nome do escritor e do ilustrador, se a ilustração de dentro está na capa, se é repetição ou se é pensada para a capa. Folheie. Veja se as ilustrações também contam a história se o texto não existisse. Ou vejam como elas contam a história em parceria. Leiam o livro pelo olhar da ilustração.

Agora conto a vocês um fenômeno vivido em Massachusetts, Estados Unidos, na cidade de Brookline, que li no New York Times. Em uma determinada livraria de lá, os livros fartamente ilustrados estão “sobrando” na vitrine. A ponto de serem devolvidos às editoras. Segundo a reportagem, livros com “ilustrações chamativas, cores alegres, letras de tamanho grande e capa atraente vem perdendo espaço”. E, por isso, as editoras estariam reduzindo o número de lançamentos.

Isso não é tudo. Pior é o motivo: apesar da crise econômica ter sido um fator importante, diz o jornal que os pais começaram a pressionar os filhos em idade pré-escolar e primeira série para abrir mão dos ilustrados em favor de livros com mais textos. Estão de olho na escola, com avaliações cada vez mais rigososas. Ou seja, a pressão seria dos dois lados.

A quem as crianças podem recorrer? E quem disse que menos texto é mais “fácil” de ser lido? E ler os livros com mais texto, mais cedo, é uma espécie de competição? E para chegar onde? Afinal, o que pretendemos realmente ao dar um livro para uma criança ler? Que ela leia o mais cedo possível o máximo de palavras? Ou que ela se apaixone e descubra o prazer de ler?

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Amigo-secreto de livro infantil?

Já pensou nessa ideia? Ótima maneira de incentivar a leitura a seu filho (e ao filho dos outros)


Não adianta: aproxima-se o Natal e a gente pensa mesmo em presentes e, claro, os tantos amigo-secretos por aí. E eu, claro, venho aqui chamar atenção para mais um: amigo-secreto de livros infantis, para serem trocados entre as crianças!

A ideia foi inspirada em um e-mail muito divertido da leitora Mirtes Aquino, mãe de uma menina de 4 anos. Ela contou que a filha terá um amigo-secreto na escola e que ela sugeriu que a menina desse livro de presente. Amei. Mas e que tal se a brincadeira fosse só com livros? O melhor disso é que poderia acontecer em qualquer época do ano. E que não necessariamente precisaria ser um presente ou um livro novo. Pode ser apenas uma nova forma de trocar os que temos em casa com os dos amigos. Só que com a graça do sorteio, a delícia da surpresa e o prazer de ler algo que alguém muito próximo gostou e indicou. Vai me dizer se não é um hábito bem bom de começar cedo, hein? E a festa pode continuar com uma leitura coletiva, as crianças maiores podem ler para menores!

E quais os benefícios desta troca? Bem, ler é um ato solitário, claro. Mas conversar sobre o livro é uma das coisas mais gostosas de se fazer. A criança pode começar a desenvolver senso crítico com a opinião dos colegas, que também podem apontar um detalhe que ele não tinha notado. Vai aprendendo que, sim, mesmo na cultura, “gosto não se discute” (ô coisa boa de aprender logo!). E, óbvio, a criança passa a treinar algo que não devemos perder nunca: formas de demonstrar afeto. O quê? Se livro tem a ver com amor e amizade? Mas claro!

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

1001 maneiras de contar uma história

Variar a forma de apresentar um livro é meu trabalho aqui e pode ser o grande estímulo à leitura na sua casa


Como eu disse há umas colunas, vivemos hoje a época das possibilidades. Com tanta correria e opções de tarefas e divertimento para os dias em família, é mais do que hora de aproveitarmos.

Todos os meses eu indico na revista impressa diversos livros infantis. São muitos que leio por mês para escolher uma lista tão curtinha...

Todos os meses também temos em CRESCER um conto inédito de talentosos escritores e ilustradores na seção Quintal, que reúne ideias incríveis para os pais passarem ótimos momentos com os filhos. (o bom de escrever uma coluna assim, bem pessoal, é que o posso usar e abusar dos adjetivos! Rs). As histórias fazem parte de nosso acervo na seção Contos do Quintal no site Livros Pra uma Cuca Bacana.

Há uns meses estreamos uma outra forma de apresentar um bom livro: o nosso vídeo Livro Contado. No primeiro convidamos Henrique Sitchin, fundador da Cia Truks de Teatro de Bonecos, um dos melhores grupos de teatro para crianças do Brasil. Com ele apresentamos Marcelino Pedregulho, um clássico imperdível do escritor e cartunista francês Sempé, original de 1969 e que a Editora Cosac Naify acaba de lançar aqui. Confiram o nosso vídeo e, aguardem: em 2011 teremos muitos, muitos mais!

Tudo que fazemos aqui tem um único objetivo: inspirar. Tento colocar em palavras sentimentos às vezes difíceis de explicar. Como a gente diz exatamente o impacto de um livro em nossas vidas? Pois é. Muitas vezes o leitor nunca dará essa resposta. Mas cabe a nós incentivá-lo a ter experiências, e que essas experiências se transformem no rol de memórias que a criança vai carregar a vida toda. Junto com os personagens e depois os já escolhidos autores preferidos, vale ficar marcado também a lembrança de como aquele livro foi apresentado, lido pela primeira vez. Quem leu? Quem deu risada? Quem se emocionou? Os personagens e enredos são nossas fantasias. Mas quem conta e como conta é ligação de carne, osso, voz e ouvido: e esses laços nunca se rompem.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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Fonte: Revista Crescer

O tempo das férias para ler

Férias a gente quer tempo para tudo: para descansar, ir ao cinema, viajar, curtir a praia, teatro... e a leitura?


A relação amar livros e escola é daquelas que rendem teses e teses de doutorado, muitos artigos, e deixam malucos os escritores, ilustradores e editores de livro para criança. É um tal de palestra para conscientizar professor de que se ele não amar livros os alunos provavelmente vão detestar a indicação dele de leitura, etc, etc e etc. Mas você aí em casa, nas férias... seria ótimo que dentre as atividades todas, a leitura fizesse parte.

O cenário é ainda mais convidativo. O livro pode estar perto da piscina, da varanda que você não tem em casa, na grama do parque. Por isso, sim, se for viajar, arrume espaço para livros na mala!

Mesmo que não for viajar, se você tiver mais tempo com seu filho, que tal iniciar uma história de um livro com mais texto, por exemplo? Até para a criança que não for ainda alfabetizada. Você podem ir dividindo não somente “para a hora de dormir”, mas ao longo de dia. A minha amiga daqui, Ana Paula Pontes começou a ler no ano passado A Mina de Ouro (Ed. Ática), Maria José Dupré, que ela tinha lido aos 9 anos de idade, com o filho João Marcelo, que tem 6. O que ela fez na pausa para o Ano Novo? Levou o livro para as férias junto! Além de manter o encanto por aquela leitura, a Ana confessou a mim que o livro foi um ótimo recurso para certos apertos, como convencer o menino a sair um pouco da piscina...

Mas as férias podem ser tempo para outras brincadeiras. Que tal montar uma peça de teatro com os personagens? Veja aqui a nossa sugestão para você adaptar a uma história que ele goste. Você também pode fazer personagens costurados em meias ou luvas, como essa outra ideia muito bacana que demos em nossa seção Façam Vocês Mesmos. Pode sugerir a ele que desenhe o que mais gostou da história, ou até pedir para ele pensar em um final diferente.

Se não estiver viajando, as férias também podem ser um tempo para ir a uma livraria com menos correria e desgustar livros com a criança. É uma poderosa maneira de ela experimentar. Como tenho vários livros em casa, com minha sobrinha Letícia a gente brinca de emprestar livros, como se a minha casa fosse uma biblioteca. Ela vê, escolhe, leva e fica com ele por uns dias. Depois devolve e pega outros. E minha amiga Ana pensou em outra coisa: que tal criar um livro com seu filho? Ele pode ir desenhando, ou vocês fazem umas colagens, dobram as páginas em caderninhos... Enfim, que a leitura seja agora – e sempre, essas ideias são para o ano todo! – , seja um momento de afeto entre vocês. Para não esquecer jamais.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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Fonte: Revista Crescer

Motivo para ler: ins-pi-ra-ção

Suspiros, olhos cheios d´água, risadas espontâneas... quanta coisa boa pode provocar um livro infantil que realmente toque a gente


Sabe aquele hábito de colecionar frases? Eu adoro! Desde a adolescência tinha uma paixão por registrar estes maravilhosos encontros de palavras. Por isso, claro, sou também vidrada em definições, as poéticas, claro.

Um clássico que sempre tem que ser relido é o Mania de Explicação (Ed. Salamandra), escrito por Adriana Falcão e ilustrado por Mariana Massarani. Nele, a autora elenca uma série de significados no, como se fosse, entendimento “de criança”, como:

Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.

Mas, espere um pouco: são definições “de” criança ou “para” criança. Ah, esta é uma questão que mexe com a cabeça de leitores, pais e, eu já vi!, acadêmicos. Claro, está mais do que intimamente ligada à outra pergunta: pode um livro ter classificação etária?

Esta conversa me foi inspirada por uma belíssima publicação da WMFMartins Fontes chamada O Que É Uma Criança?, textos e ilustrações de Beatrice Alemagna. Já adorei a dedicatória: “Para aquela pessoa grande que nunca esqueceu seu cão amarelo”, o que, para mim, quis dizer: “não importa a idade, se tem fantasia em si, tem uma infância em seu coração!”. Então, é só isso que precisa ter para curtir um bom livro infantil, não?

O livro de Beatrice procura responder o que é uma criança e o que acontece quando ela cresce. Em tom simples de quase brincadeira, vai jogando palavras com o leitor, unindo a ilustrações doces e engraçadas. Eis alguns trechos:

- As crianças têm pressa de crescer. Algumas crianças crescem, parecem felizes e pensam: “Como é bom ser grande, livre, decidir tudo sozinha.” Outras crianças, quando se tornam adultas, pensam exatamente ao contrário: “Como é chato ser grande, ser livre, decidir tudo sozinha”.

E outro:

- As crianças têm desejos estranhos: ter sapatos brilhantes, comer algodão-doce no almoço, ouvir a mesma história todas as noites.

- Gente grande também tem ideias estranhas na cabeça: tomar banho todos os dias, cozinhar feijão na manteiga, dormir sem o cachorro amarelo. “Mas como pode ser?”, perguntam as crianças.

O livro é uma deliciosa viagem sobre a nossa visão de criança e de adulto. Nossa e da criança. Sobre estes dois mundos tão diferentes, que geram tantas dúvidas e interpretações diversas. Pensando bem, parece impossível achar que esses relacionamentos – de adulto e criança – podem dar certo. E qual é o segredo? Respeitar um e outro jeito de ver a vida. Se você “esquecer”, que tal livros como estes? Só-pra-ins-pi-rar. Aproveitem!!

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

A lista de livros da escola

As listas de livros “obrigatórios” da escola são o alvo sempre quando a discussão é incentivar crianças e jovens a ler. Mas o que temos de bom para falar disso?


Esta semana minha sobrinha Letícia, de 7 anos, deu uma parada “superestratégica” em minha biblioteca particular de livros infantis para pegar emprestado o fabuloso A Velhinha Que Dava Nome às Coisas, escrito por Cynthia Rylant e ilustrador por Kathryn Brown, lançado aqui pela editora Brinque-Book. O motivo era ainda melhor: estava na lista feita pela escola para montar a biblioteca de classe do primeiro trimestre. Fiquei muito feliz porque é um livro que amo muito (veja a resenha no Livros Pra Uma Cuca Bacana) e que está inaugurando na vida da Letícia a lista de “leitura obrigatória” da escola, o que me faz pensar em como esta relação precisa ser cuidada. Muito cuidada.

Este foi um dos temas da minha primeira conversa com a ilustradora e escritora Eva Furnari, em 2007. Perguntei a ela sobre o fato de se obrigar uma criança a ler, e se isso seria um estímulo ou desestímulo pelo amor pela leitura. Ela disse: “A gente tem que ter uma ordenação, disciplina, se não ela não realiza nada na vida sem autodisciplina. Não acho ruim ser obrigado a ler quatro livros por ano. Mas tem que ver caso a caso. Vai ter livro que é inadequado à idade, tem que pensar nas formas de avaliação... Sempre depende do livro, do professor, da escola, do aluno.” Ou seja, para Eva, a questão é manter o ritmo da leitura e, claro, tomar cuidado com a forma. Fez-me lembrar um encontro que participei ano passado, promovido pela Editora WMFMartins Fontes, em que o professor de literatura infantil da USP José Nicolau Gregorin Filho disse uma frase bem interessante. Para ele, quando pensamos no papel do professor no incentivo ao prazer pela leitura, temos que pensar que a tarefa é árdua. Pois o amor pela leitura, é o mesmo amor pelo teatro, pelo cinema, pela música... é da característica de cada um. Gosto não se ensina. “Se você incentivar o hábito de ler já está bom demais!”, diz Gregorin Filho.

O que fazer, então? Dar oportunidades. Esta é a principal função de um educador, seja ele pai, mãe, professor, avó, tio. E insistir nelas, claro. Tem que ter treino, tem que ter disciplina. Tem que fazer parte do dia. Agora, o como fazer é que pode ser sempre melhorado. A promessa da escola à Fabiana, mãe da Letícia, é de que o livro – e os outros que outros alunos vão levar durante o ano – será lido junto, por ela, em sala de aula. Ou seja, degustado em grupo. Em casa, você pode sempre fazer o mesmo. A leitura pode ser associada à parte boa do dia e, mais para frente, conforme os livros ficarem mais densos e profundos, a criança pode ir se acostumando a sempre estar disposta a experimentar. E entender que para ter o livro dentro de si precisa de tempo e, para conseguir tempo (principalmente hoje em dia), é necessário esforço. Entendido isso, bom leitor será. E acompanhem o que ele vem lendo na escola: será uma aprendizado para os dois e uma oportunidade de divulgar algo que vocês tenham gostado.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Livros para passear

Na bolsa, na mochila, na mão... o que vale é que eles passeiem junto com a criança


Estive dias atrás na cidade de Nuremberg, na Alemanha, para conferir a Feira Internacional de Brinquedos que eles fazem por ali. Andei pouco pela cidade mas acabei dando sorte de no dia que tive de esperar “na rua” o horário de ir para o aeroporto, ser justamente o dia que o sol resolveu aparecer depois de uma semana coberto por nuvens e neve.

Era um domingo e a cidade ganhou outras cores além do amarelo do astro-rei: estava nas roupas, nos olhares e sorrisos das crianças nas ruas, enfrentando as baixas temperaturas do rigoroso inverno europeu tanto quanto eu. Andei pelas ruas, onde o comércio todo estava fechado e sobrava somente cafés e, pasme, sorveterias! Bem, o que isso tem a ver com livros? É que em uma parada em uma cafeteria, vi uma família gigante – e linda – de pais jovens e crianças com livros nas mãos. Os pais lendo histórias para os filhos ali, no meio do lugar, da forma mais natural possível. Sei que a Alemanha tem uma tradição com leitura, mesmo assim aquela foi uma cena marcante, clara.

Pensei em ter, então, esta conversa com vocês. Dias atrás presenteei a fofíssima Helena, filha da Daniela Tófoli que trabalha aqui comigo, com o livro O Que Tem Dentro da Sua Fralda, de Guido van Genechten, lançado aqui pela Brinque-Book. No auge de seus quase dois anos ela faz questão agora de levá-lo a todo lugar: casa dos avós, restaurante, parque e, claro, para a escola. A Malu Echeverria, editora deste site, tem um bebê de quase 1 ano, Gael, e já está fazendo isso virar um hábito também. Quando sai de casa com o filho, coloca na bolsa um livro seja qual destino for. Claro que precisamos mesmo é de opções de edição em tamanhos pequenos. Pois mala de mãe a criança... nossa!

São atitudes simples como esta que podem criar a relação do livro como companheiro da criança. Eu quando viajo sempre levo. Nem sempre leio, é verdade, tudo que quero. Mas preciso de um comigo, quase como um objeto de transição! Só vai fazer bem a vocês!

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Ler em voz alta

Empolgar a ler deveria ser o lema de cada professor que tem a missão no incentivo à leitura. E ninguém consegue isso mandando as crianças simplesmente lerem em silêncio


Adoro as palavras que envolvem mediador de leitura: ponte, caminho, aproximação, prazer, paixão, o corpo em cena.

Fui inspirada a falar do tema “ler em voz alta” por um encontro semana passada na Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, no centro de São Paulo. Era uma parceria com a Fundação SM e que levou a uma conversa os escritores e pesquisadores Marisa Lajolo e Ilan Brenman com professores sobre a qualidade da leitura na infância. Ambos, claro, nos encheram de inspiração e informação, mas o tema que mais me marcou foi o poder da leitura em voz alta. Eu mesma tive vários professores que nem sequer conversavam conosco, quanto mais ler em voz alta. Mas existiram os que leram, os apaixonados, os que conquistaram. E são eles que ficam em mim hoje.

Por quê? Porque vai aquele clichê de “plantar a semente”. Pode ser que o aluno não vire um leitor naquele momento, pode ser que o professor dispute a atenção aos livros a maravilhas tecnológicas sem leitura. Mas se o professor lê com paixão, se lê com amor àquele livro, a criança – e o adulto que ela se tornará – jamais vai esquecer. E isso pode acontecer em casa também. A leitura em voz alta, principalmente para os menores, conecta. É assim que se inicia os livros em casa, ora! Então por que duvidar deste poder? Por que parar de ler em voz alta? Pode ser um trechinho, pode ser em dupla, em trio, em turma, a família toda: mantenha a conexão. E, acima de tudo, prática de linguagem: articulação do corpo e da alma, tudo ao mesmo tempo. Poderia ser mais importante?

Acabo de escrever esta coluna em um dia à noite, depois de horas e horas de trabalho, muito trabalho. Me delicio com uma lembrança em pleno “final de expediente”: cenas de Robin Willians no maravilhoso filme Sociedade dos Poetas Mortos, em que ele seduzia os alunos com a leitura em voz alta. Um presente para mim.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

Tem jeito certo para contar uma história?

Os clássicos são sempre alvo de um “ah, mas eu sabia a história desse jeito...”. Mas as versões em livros, filmes e outras mídias nos mostram que talvez não precisemos ser tão radicais


As histórias que ouvimos na infância são uma espécie de nossa marca. O jeito que as ouvimos, ou melhor, o jeito que nos contaram também. Eu sempre me lembro da versão da minha mãe de A Festa do Céu. Ela ia contando que o sapo queria entrar na festa, e o urubu dizia vários “pré-requisitos” para ele poder ir, e o sapo ia respondendo “Obaaaaa” com a bocona de sapo bem aberta. Até que o urubu explica: “mas só entra quem tem boca pequena” e o sapo responde “Ubuuuu”. Eu amava aquilo, com morria de rir da boca da minha mãe, e adorava repetir a dose, claro.

Mas quando a gente fica adulto, passa por um monte de versões de tudo. No meu curso de pós-graduação A Arte de Contar Histórias, que faço no Sieeesp, a turma é cheia de histórias e, claro, de versões. Às vezes, há uma disputa ou outra do tipo ‘ah, eu conheço uma versão assim’ e outro ‘ah, a minha é diferente’... A gente não chega a brigar, mas que dá um aperto no coração, dá. Como assim alguém mexendo na SUA história?

E a gente não morre de rir quando criança faz isso? A Daniela Tófoli mesmo, minha colega aqui na CRESCER, estava contando que Helena, sua filha de 2 anos, fica indignada com o fato de a Cinderela da mãe não ser a mesma Cinderela do pai! Ela já decorou as partes que gosta – e isso a deixa segura, veja o porquê na reportagem fantasia de criança – e exige que sejam contadas do mesmo jeito. Mas isso é pura diversão! Delícia provocar a criança para entender que as histórias podem ser contadas de formas diferentes e que ela também pode mudar tudo se quiser! Isso é mais do que enriquecedor. É como diz o poeta Manoel de Barros: “Tudo que não invento é falso”. Tem melhor coisa?

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros

Hora da história, hora de dormir

E quando a criança associa a hora da história com algum tipo de rotina que ela não está mais a fim de executar?


A gente vive dizendo e contando e lendo pesquisas sobre a importância da rotina para criança. E isso é bem forte quando o assunto é leitura, pois é fundamental que a criança entenda que para se tornar um bom leitor é preciso esforço, vontade e tudo mais. Talvez ela entenda isso mais tarde, mas o papel dos pais acaba sendo o mesmo.

Mas veja a conversa que tive com a Daniela Tófoli novamente sobre a pequena Helena, de 2 anos. Elas tinham o hábito de ler sempre uma história antes de dormir. Mas, como típico de sua idade, a menina começou a notar que ao dormir ela perdia uma infinidade de atividades incríveis como brincar mais, dançar mais, pular mais, ficar com os pais mais, muito mais. E quando ouvia o ‘vamos ler um livro?’ ela já se apavorava e, claro, protestava. Antes de entrar em pânico – Daniela é uma devoradora de livros e se arrepia com a ideia de Helena também não ser, rs – ela investiu em uma tática: começou a sugerir um livro em vários momentos do dia que estava com ela e jogou a associação rotina-livros para longe. Foi ótimo. Helena agora se interessa pela história, seja qual for a hora que ela chegue. Está aberta e curtindo cada vez mais os livros.

Quando o assunto é educar os filhos, o binômio tentativa e erro é fundamental. Como você se interessou por livros pode não ser a fórmula que irá funcionar com o seu filho. Cada um tem seu jeito e suas surpresas (ufa! Ainda bem!) e isso precisa ser respeitado e valorizado. E nunca, nunca desista. Se você curtir com ele, ele vai criar uma ótima relação com as histórias para a vida toda.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

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Fonte: Revista Crescer

Internet desperta para o prazer de ler, diz pedagoga

17 de abril de 2011

Entrevista com Cybele Meyer, psicóloga e autora do livro 'Menina Flor'

A internet é capaz de despertar o interesse pela leitura?

Sim. Os jovens leem e escrevem muito na internet, abrindo um canal para a leitura de livros no papel. Infelizmente, as pessoas têm o hábito de querer substituir e não somar. Quando surgiu a TV, disseram que era o fim do rádio e do cinema. E com o passar do tempo o que vemos foi que a televisão é mais um recurso para o entretenimento das pessoas.

O jovem está lendo mais?

O jovem de hoje lê muito mais do que o jovem de décadas passadas. Ele iniciou o hábito com a internet de forma motivadora, sem imposição. No passado, a leitura era imposta de forma punitiva. Aquele que não soubesse falar sobre determinado clássico tiraria nota baixa. Ele era obrigado a ler os livros que o professor indicava, normalmente clássicos com linguagem erudita, se deparando com inúmeras palavras que não conhecia, gerando uma "repulsa" pela leitura em geral. Agora, o jovem lê toda a coleção do Harry Potter sem que ninguém precise mandar.

Muitas bibliotecas estão disponibilizando livros mais populares, como os de autoajuda. Isso é bom?

A pessoa que procura um livro de autoajuda está querendo se tornar uma pessoa melhor. E essa é a principal intenção do livro: acrescentar algo em sua vida e te levar à reflexão. Quem se torna leitor vai navegar em outros mares para formar sua opinião. Quem inicia a leitura pela autoajuda vai abrindo para outros focos à medida que se sentir motivada para isto.

Adultos podem começar a gostar de ler sem nunca terem esse incentivo desde cedo?

Sim. Acredito mesmo nisso e já presenciei vários exemplos de mulheres que, tendo os filhos criados e lhe sobrando mais tempo para fazer o que gosta, leem muito tentando recuperar o tempo perdido. O incentivo à leitura é válido para qualquer idade.

Quais são os benefícios para quem desenvolve o hábito de ler, tanto na vida pessoal quanto na vida profissional?

Nos livros o leitor enxerga lugares, pessoas, situações que muitas vezes não teria oportunidade de vivenciar no seu cotidiano. O hábito da leitura faz com que a pessoa passe a se expressar melhor tanto na linguagem oral quanto na escrita. Seu vocabulário aumenta e seu raciocínio é estimulado. O melhor é que todas estas mudanças são espontâneas.

Fonte: Estadão

Este livro é bom?

"A gente lê, relê, se farta de resenhas (as da CRESCER, hein?), tenta conhecer os escritores e ilustradores, mas a pergunta sempre nunca nos deixa: afinal, o que é um bom livro para criança?

Desde que nascemos passamos a experimentar produtos culturais, seja na música, na literatura, cinema, artes plásticas, etc. Se nos for permitido, muito cedo já podemos ter opiniões sobre assunto e começar a trilhar nossas escolhas. E você, pai e mãe “modernos”, ficam na maior dúvida: sigo aqui a dica da Cristiane Rogerio para escolher os próximos livros do meu filho ou deixo que ele compre aquele lá do final da prateleira, que eu nem acho tão bom mas, tem o tal bicho que ele adora.

Faça-se perguntas, antes. O que você espera de um livro para o seu filho? Que ensine algo didaticamente? Que tenha moral no final? Será que ele tem que ser “bonitinho” ou fácil à primeira olhada? Poderia falar apenas de “coisas” boas e alegres?

Ou será que o livro bom para o seu filho deveria ser um que o emocione, que o divirta, que seja inesquecível, que não subestime a capacidade de discernimento, compreensão e sensibilidade da criança, seja de qual idade for.

Para mim, livro bom para criança é livro de boa qualidade. Agora, como a gente descobre isso? Fuçando. Você e seu filho. Desde bebê. Pode começar por uma mordida ou uma boa molhada nele durante o banho. Depois ele pode aprender a ler com as mãos, sentindo a textura das páginas, o contorno dos desenhos, abraçando. Mais tarde, ele se envolverá com as letras, a junção delas, o ritmo, a dança que elas fazem pelas boas edições. E tudo isso sempre guiado por você que, lendo desde cedo para o seu filho, vai fazer esta descoberta pelos gostos e preferências se transformar em um prazer contínuo.

Cristiane Rogerio é editora de Educação e Cultura da Crescer e adora se perder entre os livros.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Da capa para dentro do livro: estratégias para enredar o leitor na história...

Peter O’Sagae
Mestre em letras pela Universidade de São Paulo (USP)

Tem coisas que descobrimos aos poucos — e isso é bom, porque é garantia de que vamos continuar aprendendo... Mas tem coisas que aprendemos tão rapidamente que até mesmo se torna complicado para descobrir o que fizemos para fazer tudo o que fazemos! E com a leitura também acontece assim. Um dos objetivos da nossa oficina é, então, tentar driblar o tempo, congelá-lo, quem sabe fotografá-lo, para entender o que vai acontecendo quando estamos soltos, lendo um texto.

Esse exercício nasceu de minhas experiências como professor de Literatura Infantil e de Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e como leitor dessa mesma literatura e de algumas teorias que existem por aí. Um leitor que se sente participativo, responsável pela construção de sentidos de um texto, um co-autor. Quem pensa tudo isso, poeticamente melhor do que eu, é Bartolomeu Campos Queirós (1999)

Fundamental, ao pretender ensinar a leitura, é convocar o homem para tomar da sua palavra. Ter a palavra é, antes de tudo, munir-se para fazer-se menos indecifrável. Ler é cuidar-se, rompendo com as grades do isolamento. Ler é evadir-se com o outro, sem, contudo, perder-se nas várias faces da palavra. Ler é encantar-se com as diferenças.

Ensinar e aprender a leitura, a gente aprende e ensina toda vez que nos encontramos com a diversidade de textos que existem ou, como educadores, ao promovermos o “abraço” da criança com o texto.

Embora ninguém vá suspeitar que os olhares não sejam, aqui, para o próprio texto de literatura para crianças, é bom lembrarmos a variedade existente de textos não-literários, às vezes classificados como utilitários: textos de circulação social, como o panfleto e os anúncios publicitários de rádio, televisão e revista; a notícia e a reportagem do jornal; tabelas e listas enumerativas; o bilhete, a carta e o ofício das tramas epistolares; receitas e regras de jogos da tipologia instrucional; os informativos por natureza, como o verbete de dicionário, de enciclopédia, artigos de revista especializada em um assunto; e os velhos didáticos também. São todos textos que se escrevem e se lêem, que pedem aproximação e abraço específicos, bem como a literatura. Hoje vivemos sob o signo (e o sonho) do letramento.

Vamos pensar leitura enquanto prática de interação através da linguagem, uma construção de sentidos que vai sendo erguida e confirmada ao longo do próprio processo de descortinar e desvendar o texto e que seja, de preferência, uma prática de colaboração participativa, um jogo entre adultos e crianças, em sessões de leitura compartilhada.

Nessas ocasiões, certas estratégias de leitura entram em ação pelas mãos, pelos olhos e pelas bocas do professor e do aluno, “denunciando” até mesmo como cada participante fez e faz para alcançar a compreensão do texto. Além de compreender o que diz e como diz o texto, a criança aprende, exercita e revisa suas próprias estratégias de leitura quando entra na brincadeira. O encontro com o livro, para abraçar a literatura, pode ser pensado e dividido em dois momentos, contínuos e sem interrupção: pré-leitura e pós-leitura, sempre em uma atmosfera afetiva e efetiva — quando nos ocupamos com a formação do leitor e de nós mesmos. Bem seja, diz Marisa Lajolo (2001), que

.... como você já sabe, a escola não pode se contentar com uma leitura mecânica e desestimulante. A escola pode e precisa comprometer-se com muito mais do que isso. Ela pode e precisa comprometer-se com uma leitura abrangente, crítica, inventiva. Só assim estará ensinando seus alunos a usar a leitura e os livros para viver melhor.

De todo esse circuito, nossa oficina enfoca boa parcela de estratégias de leitura, mas concentradas sobre a leitura de capa de livros para crianças. Estaremos, assim, refletindo sobre a pré-leitura do texto literário, buscando caminhos e preparando condições para a recepção da literatura.

O que ler?

Essa é a primeira pergunta-desafio para todos nós, educadores/leitores que desejamos conduzir a criança na aventura da leitura. Encontrei uma resposta (aposto que existem outras mais...) na época em que trabalhei junto ao Instituto Qualidade no Ensino. Transcrevo, compartilho:

Ler é sempre uma atividade complexa, pois envolve a conjugação de uma grande variedade de ações, admitindo até mesmo a interferência de atividades não propriamente específicas do ato de ler, mas que estão implicadas toda vez que se usa a linguagem. Atividade de conhecimento por excelência e condição para o trabalho intelectual, a leitura é o processo de compreensão multifacetado, multidimensionado, envolvendo diversas operações, como: percepção, decodificação e processamento de informações; memória, predição (antecipação), inferência, dedução, evocação, analogia, síntese, análise, avaliação e interpretação. Portanto, saber ler não é apenas conseguir decodificar, “traduzir” automaticamente um conjunto de sinais, mas mobilizar um conjunto de estratégias, fazendo interagir diversos níveis de conhecimento para construir significados.

Essa definição tem me acompanhado, partindo de um referencial cognitivista de aprendizagem. Estratégias de leitura são ações que os leitores desenvolvem, e, por força do hábito pedagógico que também trago na bagagem, essas ações correspondem aos objetivos a serem alcançados e cumpridos pelas crianças, em termos de habilidades, nas atividades em sala de aula. Porém, que a seriedade da pauta escolar não comprometa o prazer próprio da leitura literária. Ler é fazer, e mais: é fazer-se. Outra vez, a voz de Bartolomeu Campos Queirós (1999) alinhava meus pensamentos, ao afirmar que “A leitura acorda no sujeito dizeres insuspeitados, enquanto redimensiona seus entendimentos”.

Redimensionar o humano — eis o projeto da leitura! Como administrar as ações, nosso desafio... Mas antes de parecer um receituário, rígido em regras, gostaria de oferecer pontos de reflexão sobre a prática de leitura que promovemos na escola.

· Como acompanhamos o aprendizado e o encantamento da criança?
· O quanto permitimos a ela sair da esfera de reprodução da linguagem, esbaldando-se com a alegria de uma razão aventureira, produzindo sentidos por entre textos e livros?
· De que maneira laçar as vozes dos leitores co-autores para que todos sejam ouvidos e envolvidos pela leitura e pelos diálogos que se articulam antes, durante e depois dos encontros com o texto?

É importante que o professor, leitor e formador de leitores, instrua, oriente e dirija uma sessão de leitura compartilhada; que se sinta livre e seguro ao explicar como conseguiu construir sua própria leitura, apontando as pistas que foi juntando e, quanto mais solicitado, demonstrando e exemplificando o seu jeito de jogar com o texto e que saiba dar oportunidade para a criança exercitar suas estratégias de interpretação e falar sobre elas, ao monitorar as jogadas e passes livres dos alunos, negociando os sentidos, conduzindo breves atividades de releitura para a confirmação do que foi anteriormente estimado. É essencial, entre os participantes, circular uma variedade de perguntas (questionamento, e não questionário): que a dúvida do adulto seja a resposta da criança, e vice-versa, fazendo viver e reviver uma elaboração criativa de abordagens e aproximações com o texto...
Que o jogo-leitura de capa seja uma
aventura rumo à; obra, uma leitura a
quatro mãos - ou a dez, treze, vinte
mãos, olhos, bocas... - que faça brotar
cumplicidades, leituras em co-auditoria.

O livro na capa?

Já dissemos que a leitura da capa do livro é uma pré-leitura do texto e, por isso mesmo, não é uma atividade que tenha fim em si mesma nem poderá substituir a leitura literária propriamente dita. Também não é um exercício a ser realizado a todo momento, com todos os livros que serão divididos em uma leitura compartilhada. Se favorece a aprendizagem da criança quanto ao domínio das estratégias de leitura, essas ações, reciprocamente, deverão favorecer outras aprendizagens textuais.

Vamos pensar a leitura de capa como missão de espionagem, na qual o leitor/espião busca intuir relações de coerência com o texto que virá.

Assim, o título de um livro e a imagem da capa passam a compor um jogo — a leitura articula-se no desvelamento de senhas verbais, pistas visuais... Nesse processo de interação com o objeto-livro, abre-se um horizonte de expectativas em relação à história que vamos encontrar logo mais... De tal modo, a leitura de capa exige um olhar desperto e inquieto, dado à própria fantasia e ao raciocínio lógico. É, por isso, um exercício de percepção, curiosidade e imaginação sobre o material da capa em que o leitor não pode trapacear consigo mesmo, mas permitir que dúvidas, perguntas, certezas e apostas surjam, sem ceder à vontade de entrar no livro apressadamente. As pistas, isoladamente, já compõem um conjunto de significados que, ao serem somados, justapostos, confrontados pela fricção das possibilidades combinatórias, começam a produzir razões cintilantes, descobertas pela intuição e à espera de confirmação.

Título e imagem dialogam. Mas podem ser segmentados, analisados em separado, em um momento, para serem sobrepostos em outro.

O título é a nossa senha verbal, poderá ajudar tanto a revelar a imagem que se vê quanto a história que se desconhece até então. Operar sobre ele é proceder a uma rápida e ágil atividade de análise lingüística ou de epilinguagem, quando se busca interpretar o significado mais literal ou sua ambigüidade, o quanto há de sentido fechado ou traços incompletos para o leitor preencher, atualizá-lo, correlacioná-lo com outros títulos, textos, experiências vividas.

A imagem, igualmente, pode estar pronta e acabada, em plena consonância com o título, quer reproduzindo-o sem espaços generosos para uma visitação, quer tentando explicitá-lo, como sempre ocorre quando é intencional levar o leitor a um gesto associativo direto entre o texto e a imagem. Bem melhor é quando a ilustração da capa, à primeira vista, intriga o leitor, provoca-lhe um estranhamento — seja na esfera da apresentação, flagrando uma cena incomum, não rotineira, enigmática, prenhe de sugestões sobre o que acontecera pouco antes ou de expectativas sobre o que aconteceria em sua seqüência; seja em sua natureza plástica, a presença admirável da técnica.

Respeitando sempre as características e as configurações de linguagem presentes em cada exemplar da literatura para crianças, é importante que o professor crie condições favoráveis para a criança fazer–aprender–refazer o processo da leitura que se tece. Toda obra, pensada como um todo significativo, sempre revela uma intencionalidade comunicativa e estética, e esta pode vir muito bem expressa em sua capa, sintetizando os principais aspectos da narrativa que o livro transporta, ao mesmo tempo em que tenta fisgar o leitor para sua leitura.

Mas também deve ser dito: nem toda capa produz boas leituras, coisa que não depende totalmente do livro e não compromete a qualidade do texto que contém nem a invenção do ilustrador. Descobrir a boa leitura ou as possibilidades dela acontecer é outro jogo: ao selecionar uma obra, o professor deve ser apenas leitor, pesquisador e espião.

Que o jogo-leitura de capa seja uma aventura rumo à obra, uma leitura a quatro mãos — ou a dez, treze, vinte mãos, olhos, bocas... — que faça brotar cumplicidades, leituras em co-autoria. Essa seria a conduta e a condição para que todos, crianças e adultos, desenvolvessem habilidades e estratégias de leitura, como saber inferir relações, levantar hipóteses, antecipar acontecimentos, evocar outros textos de sua bagagem literária, explicitar as marcas e deduzir o obscuro, intuir sentidos, entrelaçar conhecimentos... Adiante, o projeto humano: o leitor proficiente.

Afinal, pra que livros?

15 de abril de 2011

Marcelo Carneiro da Cunha

"Livros nos tornam melhores", defende escritor, que reivindica mais bibliotecas no País (foto: Getty Images)

Estimadíssimos leitores, fui a Belo Horizonte e voltei, com escala no aeroporto de Confins, que como o nome diz, fica em lugar algum. Lá, participei do evento Beagalê, em um debate sobre o filme do meu livro, Antes que o Mundo Acabe, junto com Eduardo Moreira, do ótimo grupo Galpão e que atua no filme. Para uma platéia atenta pude explicar o que eu sei do filme e o que autores pensam de atores: a gente se esforça pra criar a história e quem acaba no Castelo de Caras, sempre, são eles. Em outro momento do mesmo evento participei de um debate sobre a literatura e o seu espaço nesse mundo pop em que todos, menos o Bolsonaro, vivemos.

A platéia era formada por educadores, bibliotecários, gente que se importa, e muito, com o que acontece com a literatura e com os livros, e uma das questões mais presentes era "Como fazer para as pessoas lerem?".

Eu não estudei o suficiente para ser educador e admiro bibliotecários tanto quanto admiro o genial inventor do dulce crema de leche; a pergunta me pegou de lado e ao mesmo tempo em que não compreendi exatamente o sentido dela, me esforcei ao máximo para dizer algo que soasse inteligente na hora, e não consegui, como nunca consigo.

A minha pergunta inicial seria: para que ler? Por que isso seria realmente importante, e para quem? Será que eu ajudo o mundo quando convenço pessoas a ler? Quando escrevo algo que elas se disponham a ler? Elas não seriam mais felizes vendo novela da Globo? Elas não são mais felizes vendo novela da Globo?

Bons livros não fazem a gente mais feliz, estimados leitores. Eles não são feitos para isso. Eles fazem a gente mais gente, claro. Mas isso é bom? Pra todo mundo?

Nessa era pós-industrial não somos mais importantes, ou tão importantes, como quem produz coisas. Nesse sistema, somos mais úteis consumindo. Consumidores precisam ler alguma coisa além de propaganda e manual de operação de celular? Não muito.

E então acho que compreendi o que sentem aquelas pessoas tão legais reunidas em BH. Elas não querem que sejamos apenas consumidores. Elas acreditam que existe um outro projeto, maior, onde seres humanos ocupam um lugar mais central do que televisores de LCD. Elas acreditam que existe, ou deve existir um mundo onde somos o sujeito e os objetos são o objeto. Deve haver um mundo onde somos importantes, e nele, livros são importantes porque eles nos fazem pensar, sentir, ser, coisas que não são nada importantes para objetos, mas são essenciais para quem se vê como sujeito. É isso.

Então sim, livros são importantes, ler é muito importante, porque ler é o maior exercício da nossa humanidade que existe, porque ele une o que sabemos e sentimos com o que não sabemos exatamente que existe. Livros unem partes fundamentais de nossas vidas, que são o nosso imediato com o nosso essencial. E livros, diferentemente de filmes ou romarias até Aparecida, acontecem dentro da gente. Eles se constroem dentro de nós, e, ou interagem com a gente ou não acontecem. Livros dependem de nós, de nossas mãos e nossas mentes, ou eles mesmos não existem. A interdependência é plena.

Então, se livros são importantes e essenciais, se ler é o caminho mais curto entre os milhares de quilômetros que separam nós de nós mesmos, como fazer para as pessoas lerem mais e melhor? Pensei nisso em todo o trajeto desde BH até Confins, o que levou séculos. Acho que do mesmo jeito de sempre. Com bons e ótimos livros, daqueles que a gente começa e quando vê até as moléculas dos nossos ossos querem saber o que vai acontecer na página 122. Dando a cada livro 20 páginas de chance, indo além e até o final se isso parecer bom ou ótimo, dando 20 páginas a mais de chance caso a gente fique em dúvida, largando aquele e pegando outro, caso a gente se convença nas primeiras 20 que o resto vai ser igualmente tão ruim quanto um bom Paulo Coelho. Simples. Azar que somente me dei conta dessa resposta quando já estava em Confins, a capital do lugar algum, onde nem meu celular funciona.

Com mais e mais bibliotecas, para remover o obstáculo que o custo de um livro representa para muita gente. Com mais bibliotecários apaixonados como eles. Com bibliotecas nas estações do metrô e nos pontos de ônibus, com vendedores da Avon indo de casa em casa. Com os novos livros digitais aproximando as pessoas dos textos e depois, espero, das páginas em papel, que ainda são mais gostosas ao tato do que um Ipad.

Uma sugestão? Meu amigo Michel Laub acaba de lançar um livro ótimo, Diário da Queda, desses que estragam o dia, a semana da gente e por isso são tão bons. Experimentem.

Agora lembrei que aprendi a ler sozinho, apenas para impressionar uma pessoa. A consequência foi que passei a ler tudo que via pela frente, o que me impressionou muito. A pessoa para quem eu aprendi a ler é a minha maravilhosa mãe, eu sabia que ela gostava muito de ler. "A gente precisa viver grandes amores", dizia a minha mãe, aferrada a um bom romance. Hoje ela completa invisíveis 85 anos de idade e, se alguém aí precisa de mais alguma demonstração de que ler faz bem, eu posso apresentar a saltitante dona Zilah Carneiro da Cunha como prova.

Ler nos faz indestrutíveis, é o que eu penso, enquanto mando pra ela um beijo do tamanho da emoção que eu senti quando ela me viu lendo pela primeira vez, do que eu vi naquele olhar, que representa pra mim o tamanho possível da literatura. Que nos faz maiores do que somos, que nos torna melhores do que somos, e assim e por isso mesmo, melhores.

Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.

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