domingo, 26 de dezembro de 2010

Família é fundamental na criação do hábito de ler

Mariana Mandelli - O Estado de S. Paulo
Publicada em 13 de dezembro de 2010

Os educadores afirmam que o segredo para despertar o gosto pelos livros nas crianças e jovens está muito mais no comportamento dos pais que nas orientações da escola.

Foto: Evelson de Freitas/AE
Irmãos. Dora está sempre conectada e Paulo adora ler


“Os pais devem ler junto com os filhos, mantendo o canal de comunicação aberto, sem censurar o que as crianças querem ler”, aconselha José Manuel Moran, diretor de Educação a Distância da Anhanguera Educacional e professor aposentado da ECA-USP.

“Ler mostrando o quanto isso pode ser gostoso deve ser encarado como uma tarefa pelos pais”, opina Teresa Ferreira, psicopedagoga da Unifesp. “É mais fácil despertar o gosto pela leitura no jovem dessa forma do que pela imposição que a escola e os vestibulares fazem.”

A importância de incentivarem a leitura formal em casa decorre principalmente do fato de que, hoje, desde muito cedo, as crianças já têm contato com o computador. “Atualmente, os brinquedos são quase todos eletrônicos. Poucos são pedagógicos”, aponta Sylvia van Enck, psicóloga do Programa de Dependência da Internet do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti) da USP.

Os livros sempre entraram na casa dos irmãos Dora e Paulo Galvão Amaral, de 14 e 11 anos, respectivamente. Dora passa cerca de três horas por dia na internet e gosta de ler, mas acaba tendo mais contato com as obras que a escola indica. “Se não for livro obrigatório, só vou até o fim se a história me cativar”, conta.

Paulo é um aficionado por letras. “Li duas coleções de livros neste ano e muitos gibis. Também gosto de ler jornal, principalmente quando meu pai me mostra alguma matéria legal de ciências”, conta. “Minha mãe sempre incentivou a gente a ler. É só eu comentar que quero tal livro que ela aparece com ele.”

Adaptações. O dilema entre barrar o uso das novas tecnologias – para evitar distrações – e usufruir das possibilidades digitais já assola o cotidiano das escolas. No Colégio Santo Américo, na zona sul paulista, a direção vai proibir o celular na sala de aula em 2011 – antes a orientação era de não usar. “Percebemos alguns abusos”, conta Cesar Pazinatto, coordenador do ensino fundamental II. “É complicado lidar com tudo isso, porque as novas tecnologias têm um potencial enorme para ser explorado em classe.”

Para o professor da área de educação e ciência da computação da Universidade de Stanford,Paulo Blikstein, o grande desafio da escola é a motivação. “É preciso direcionar o aprendizado para coisas interessantes. Aí entra o papel dos pais e professores: apontar obras e criar condições para que os alunos se interessem de forma genuína”, afirma. “Conversar com amigos pelo celular é ótimo, mas isso não vai necessariamente levar ninguém a ler Machado de Assis.”

REALIDADE

“A internet não foi planejada para ajudar na concentração. Mas a solução não é proibir as crianças de usar o chat e o Facebook.” Paulo Bliksten, professor de Stanford

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Brasil fica em 53º lugar em prova internacional que avalia capacidade de leitura

Larissa Guimarães 07/12/2010

O Brasil obteve o 53º lugar, em uma lista de 65 países, numa prova internacional que avaliou a capacidade de leitura de estudantes com 15 anos. Além da leitura, o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) também avaliou as habilidades dos estudantes em matemática e ciências.

O exame, que é aplicado a cada três anos, é divulgado pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Juntos, os países que participam do Pisa representam aproximadamente 90% da economia mundial.

No Pisa 2009, o foco de análise foi a leitura. Nesse ranking, o Brasil obteve 412 pontos -- a China, primeira colocada, chegou a 556 pontos. Foram avaliados diversos aspectos na leitura, como a capacidade de reflexão, avaliação e interpretação dos alunos, por exemplo.

De acordo com o relatório divulgado pela OCDE, o Brasil teve "um grande ganho" na nota de leitura nos últimos anos. Apesar disso, o país ainda fica atrás de Chile (44º), Uruguai (47º), Trinidad e Tobago (51º) e Colômbia (52º). Por outro lado, o Brasil conseguiu ficar à frente da Argentina (58º) e do Peru (63º).

Em ciências, os estudantes brasileiros ficaram com 405 pontos. Em matemática, a nota ficou em 386 pontos (a China obteve 600 nesse quesito).

DIFICULDADES

O relatório apontou que o Brasil tem dificuldades para melhorar a educação, uma vez que o país é grande e tem muitas escolas rurais.

Sobre o levantamento, o Ministério da Educação afirmou que o Brasil está entre os países que mais cresceram no Pisa nos últimos anos, cumprindo a meta do PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação) de atingir a média 395 pontos nas três matérias.













Por que ninguém lê direito no Brasil

Matéria publicada em 01/11/2010

O país nunca se sai bem na mais importante avaliação internacional de leitura. O que fazer para mudar essa realidade – em 40 anos

Camila Guimarães

A cada três anos, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) compara o desempenho de alunos de 15 anos de diversos países em três áreas do conhecimento: leitura, ciências e matemática. Na próxima semana, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) vai divulgar como andam as habilidades de leitura dos jovens e até que ponto eles conseguem compreender um texto, localizar e associar informações, fazer um raciocínio lógico sobre elas e tirar conclusões. A prova foi realizada no ano passado por cerca de 50 mil alunos sorteados em 990 escolas públicas e particulares do país. A chance de o Brasil ficar bem colocado nesse ranking é diminuta. Em 2000, nossos alunos ficaram em último lugar. O país passou para a 37a posição em 2003, entre 41 nações. Em 2006, ficou em 48o entre 56 participantes, com uma nota pior que a anterior. Não há motivos para esperar que no Pisa 2009 o Brasil consiga uma posição melhor.

DIVERSIFICAÇÃO
O professor Luis Junqueira em sua aula de leitura.
Ele dá textos de gêneros diferentes, para
os alunos aprenderem a interpretar melhor

Não é que não tenhamos feito alguns avanços – o maior deles foi a universalização do ensino fundamental. Mas estamos longe de uma educação de qualidade, que inclui inculcar nas pessoas o hábito da leitura e desenvolver nelas a capacidade de compreender textos complexos. Para atingir essa meta, a escola precisa avançar muito. Não só ela, a sociedade também. Em alguns dos países líderes do ranking, como Finlândia e Canadá, o hábito de leitura vem de casa. Os pais influenciam, incentivam progressos nessa área, dão exemplo para seus filhos ao gastar tempo e energia com atividades culturais. A estrutura no país também é precária. O Brasil tem uma biblioteca pública para cada 33 mil habitantes (quase 70% das escolas públicas nem sequer têm uma). O brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano. Nos Estados Unidos e na França são dez. Na Finlândia, o país que mais ganhou o Pisa, 21.

Isso leva a crer que não devemos esperar grandes melhoras na leitura de um Pisa para o outro, e sim de uma geração para a outra. Como fez a Coreia do Sul. Há 60 anos, o país tinha altos índices de analfabetismo e quase metade das crianças e jovens fora da escola. Eles instauraram uma reforma educacional há 40 anos, apostando na leitura como base. Bibliotecas exclusivas para crianças, financiadas por empresas e fundações, tomaram conta de Seul. Uma das maiores redes, a Crianças e Bibliotecas, surgiu da iniciativa de um grupo de mães, preocupadas com o futuro dos filhos. Em 2006, a Coreia tomou da Finlândia o primeiro lugar em leitura no Pisa.

O ponto inicial desse processo é a escola. Nossos colégios não estão preparados para formar leitores – sejam eles de clássicos da literatura, gibis, jornais ou blogs na internet. Dentro das salas, o desafio começa pelos professores. Sem formação adequada, eles têm de ensinar o que não sabem. “Para que o aluno aprenda a ler, o professor precisa dominar a técnica da leitura”, afirma Mary Elizabeth Cerutti Rizzatti, do Núcleo de Estudos em Linguística Aplicada e professora da Universidade Federal de Santa Catarina. “Mas poucos tiveram a oportunidade de desenvolver a habilidade de ler um contrato das Casas Bahia ou um poema de Drummond.”

Quando os educadores não são eles próprios hábeis na interpretação de textos, pipocam projetos de leitura pouco eficientes. As rodas de leitura de livros literários, tão comuns em classes de qualquer idade, por exemplo. É claro que essa atividade é importante, especialmente para crianças, mas só ela não garante que o aluno entenda a questão de uma prova de matemática ou ciências, ou que se torne um bom leitor. Uma das maiores dificuldades é garantir que um leitor de conto de fadas se transforme em leitor de um texto de revista ou científico. Mas poucas escolas têm projetos de leitura para textos diferentes. “Uma criança que se dá bem lendo narrativas ou contos pode ser um desastre na hora de ler um texto informativo”, afirma Débora Vaz, diretora do Colégio Castanheiras, de São Paulo. Lá, a leitura em sala de aula é feita com a mediação do professor e com prioridade para ensinar gêneros diferentes. “O aluno mais fraco tem problemas em identificar o tipo de texto que lê, qual é a mensagem que ele passa e para quem”, diz Luís Junqueira, professor de português do 6º ano.

“A escola subestima a capacidade de leitura do jovem e não enxerga o leitor que ele é”
SIMONE ANDRÉ, do Instituto Ayrton Senna

A importância de ter habilidade de ler textos diferentes foi uma das principais razões de a Universidade de Campinas (Unicamp) mudar o formato da redação de seu vestibular. Neste ano, os candidatos a uma vaga na universidade tiveram de escrever três tipos de texto, de gêneros diferentes. “Errar o formato dos textos é mais grave que errar gramática”, diz Renato Pedrosa, coordenador do vestibular. “Infelizmente, a maioria não domina a leitura. E só quem tem essa habilidade vai se dar bem na universidade.”

Um dos tipos de leitura mais negligenciados pelos professores é justamente o mais cobrado em bons vestibulares ou pelo próprio Pisa: os enunciados informativos das questões. Por isso algumas escolas estão tirando a exclusividade do ensino da leitura dos professores de português – e dividindo a responsabilidade com o resto do corpo docente. Como fez uma escola pública de ensino médio s americana, a Brockton, do Estado de Massachusetts. Seus alunos, oriundos de comunidades carentes, tinham um péssimo desempenho nas avaliações estaduais e altas taxas de evasão (problemas parecidos com os do ensino médio brasileiro). Há dez anos, um grupo de professores começou uma campanha para estimular a leitura e a escrita em todas as disciplinas. Nos últimos dois anos, a escola ficou entre as 10% melhores de seu Estado.

Pela falta de estímulos em casa, no Brasil as escolas ainda assumem a tarefa extra de tornar a leitura interessante, principalmente para os adolescentes. E de novo se mostram inábeis: limitam a oferta de leituras a obras clássicas, difíceis de digerir, e obrigatórias. “A escola subestima a capacidade de leitura do jovem e não enxerga que tipo de leitor ele é”, diz Simone André, coordenadora da área de Educação Complementar e Juventude do Instituto Ayrton Senna, que trabalha com projetos de leitura em 200 escolas públicas de São Paulo. Na Finlândia não existe leitura obrigatória. Os alunos decidem com os professores quais livros vão ler e em quanto tempo.

Celso Renato Teixeira, diretor da escola estadual Luis Gonzaga Travassos, na periferia de São Paulo, descobriu em 2005 que seus alunos de 5a a 8a série gostavam de ler. Mas não o que a escola mandava. Um ano antes, quando chegou à escola, Teixeira deparou com um alto índice de analfabetismo funcional nas séries finais do ensino fundamental. Teve de dar prioridade a isso. Em seguida, pensou no projeto de leitura. Os alunos foram convidados a escolher na biblioteca da escola os livros de que mais gostavam. Na mesma época, a garotada visitou a Bienal do Livro em São Paulo e de novo os gostos pessoais ficaram perceptíveis. “A maioria escolheu livros que falavam sobre adolescência, namoro, relação com os pais”, diz Teixeira.

ESTÍMULO
Crianças e jovens no espaço infantil de uma biblioteca na Coreia do Sul.
Lá, o investimento em leitura deu retorno – em quatro décadas

Esses temas viraram iscas para os alunos. Aos poucos, a escola incentivou a passagem para outros tipos de leitura. Hoje, a biblioteca é abastecida com livros que os próprios alunos escolhem. Segundo Teixeira, alunos que antes não sabiam ler frases simples agora fazem resenhas dos livros – e os classificam com estrelas para recomendá-los aos colegas, em uma feira organizada toda semana. “Só entram os de quatro e cinco estrelas”, afirma Teixeira. Em cinco anos, os empréstimos na biblioteca aumentaram 79% e o rendimento da Travassos aumentou 33% na avaliação estadual.

O esforço dentro das escolas não basta. É mais difícil seduzir os alunos se eles não encontram fora do colégio (em casa, entre os amigos, na biblioteca do bairro) o mesmo ambiente de estímulo ao conhecimento. Eles acabam vendo o livro como uma “coisa de escola”. E, como a escola é uma obrigação, ler passa a ser considerado chato. Por isso, muitas escolas adotam projetos que envolvem os pais dos alunos. Há seis anos, a escola estadual Astor Vasques Lopes, em Itapetininga, interior de São Paulo, incluiu em seu projeto de leitura uma lição de casa para os pais. Os alunos do 1o ao 5o ano levam o livro para casa para ler junto com alguém da família. Pode ser o pai, a mãe, a avó. O importante é que quem leia faça um relatório sobre o livro, com suas impressões, e o mande para a professora. Com o filho matriculado na escola há pouco mais de um ano e meio, Roseli de Fátima Moreira diz que lê muito mais agora, depois de escrever relatórios e participar das rodas de leitura na escola. Ela diz ter comprado – e lido – por conta própria os dois primeiros livros da série Crepúsculo. “Eu me sinto mais estimulada.”

Os três casos citados nesta reportagem mostram avanços. Mas são progressos pontuais. Não há garantia de continuidade, seja pela falta de recursos ou por uma possível troca no grupo de professores. Mesmo colégios de elite, particulares, sofrem com a ausência de uma cultura da sociedade que estimule as crianças e os jovens a ler. Por isso, o resultado do Pisa 2009 deve ser similar ao de 2006. Se fizermos tudo certo (investir nas escolas, valorizar os professores, aumentar a carga horária, fornecer livros e material...), poderemos melhorar essa nota nos próximos anos. E só assim daremos condições para que a próxima geração dê o salto de que o país precisa para entrar na sociedade do conhecimento.

Fonte: Época

Era uma vez uma boa história

Júnior Milério,12/09/2010

Em entrevista, a contadora de histórias Alessandra Giordano fala sobre os segredos e o poder das narrativas: “A história é a coisa mais barata do mundo e é amor puro e verbalizado”

Foto: Getty Images
Contar histórias fortalece o vínculo entre pais e filhos
e é uma forma eficaz de transmitir ensinamentos

Fadas, bruxas e monstros encantam crianças, adolescentes e até mesmo adultos. E a contadora de histórias Alessandra Giordano vem despertando a atenção de ouvintes há mais de 20 anos. Ela acredita que histórias podem colaborar para um ambiente familiar mais harmonioso e que, juntos, pais e filhos podem trabalhar a criatividade.

Para a autora do livro “Contar Histórias, Um Recurso Arteterapêutico de Transformação e Cura” (Artes Médicas), a história tem o poder de fortalecer e ajudar a criança a querer ser melhor. “E não custa nada, é a coisa mais barata do mundo e é amor, amor puro, amor verbalizado”, define.

Alessandra ainda afirma que, no momento de contar e ouvir um conto, os pais se fortalecem no filho – que, por sua vez, encontra força nos pais. “Nunca nos esquecemos das histórias que nossos pais nos contaram ou ainda contam. E os pais jamais se esquecem do olhar atento de um filho”, diz. “E só assim – olhando no olho, falando, abraçando e contando histórias sobre coisas boas – é que a gente se fortalece”

Um ambiente intimista, personagens e histórias adequadas desenvolvem um elo de afeto e respeito. Para a contadora de histórias, isso “é de uma grandeza que a gente não tem noção do sentido que faz na vida de uma pessoa”.
Foto: Arquivo pessoal
Para Alessandra Giordano, histórias têm o poder de curar

Veja abaixo a conversa que o iG Delas teve com a contadora de histórias Alessandra Giordano

iG: No seu livro Contar Histórias, a senhora esclarece que a origem dos contos orais está nas cantigas de ninar. Qual a importância de se contar histórias para bebês?

Alessandra Giordano: As informações que temos sobre a origem dos contos de tradição oral explicam que, na realidade, eles são as primeiras histórias que povoaram a mente do ser humano, ou seja, eles vêm das cantigas de ninar. Isso mostra a importância de se contar histórias para bebês., pois além do contato físico entre o contador e o ouvinte, a história contada cria um elo de afeto, fundamental para o desenvolvimento da criança.

iG: Quais são as características de um conto oral e o que ele tem de diferente de uma história escrita?

Alessandra: Os contos de tradição oral são os que não têm autores. Nasceram de crenças em comunidades tradicionalmente orais e existem desde antes da palavra escrita. Normalmente tratam do passado, não têm idade ou país de origem. São documentos históricos de uma comunidade, retratando o percurso de evolução de um povo, e colaboram também com as transformações necessárias nas relações humanas. Já os atuais têm autores que considero verdadeiros artistas da palavra.

iG: Com uma carreira como contadora de histórias, como a senhora define sua experiência?

Alessandra: Estou estudando a importância de se contar histórias na atualidade, a necessidade que o homem moderno tem de ouvir contos. Sou a quarta geração de contadora de histórias da minha família, vivo de narrar boas histórias. No meu consultório, utilizo esse recurso para auxiliar no desenvolvimento da criatividade. Já tive ouvintes em asilos e praças. Participei de um projeto que levava contos de fadas para meninos de rua. Para que eles pudessem ter acesso ao sonho, à fantasia, acreditarem que são capazes de construir a própria felicidade. É uma caminhada de muita satisfação. O conto adequado, na hora certa, despertando o interesse no ouvinte, é muito eficaz. Tenho percebido isso atuando no consultório. A melhor forma de ilustrar conhecimentos para as crianças também é contando histórias. É através de metáforas que elas compreendem melhor questões do dia a dia.

iG: Que função têm os contadores de histórias atualmente?

Alessandra: O mundo atual está muito frenético, o computador te coloca em contato com qualquer outro canto do mundo em segundos e isso rouba a quietude das pessoas, deixando tudo acelerado. Hoje a função do contador de histórias é a de resgatar a paz interna. A roda de contação de histórias serve para resgatar valores, respeito e solidariedade. Ainda ajuda na construção da própria comunidade. A necessidade de histórias hoje é mais que urgente, é preciso entender o por quê de se contar histórias, sua importância na sociedade como troca mútua de conhecimentos.

iG: Os pais podem assumir essa função para seus filhos?

Alessandra: Temos que pensar em um princípio básico. O ser humano precisa , antes de mais nada, cuidar de si mesmo. Um pai ou uma mãe que tem sua criança interna bem cuidada vai realizar uma troca com seus filhos. Ultimamente estamos escravos do relógio. Precisamos nos permitir tirar uma tarde para sentar e ler um conto. Pais e mães são sempre nossos heróis, tudo que eles ensinam são de primeira grandeza. É atribuída a Einstein uma frase sobre isso: “Se quiser que seus filhos sejam brilhantes, leia contos de fadas para eles. Se quiser que seus filhos sejam mais brilhantes, leia ainda mais contos de fadas.”

iG: Onde, para quem, por que e qual história contar são alguns pontos esclarecidos no seu livro. Como as pessoas podem contar uma boa história?

Alessandra: Contar histórias é uma arte e, como toda arte, possui segredos e técnicas. Estudando o poder da linguagem, a gente sabe que existem técnicas que podem ser facilitadoras para uma boa narrativa. É preciso convidar o ouvinte para ouvir uma história. É preciso instigar a imaginação das crianças, tentando despertar o interesse dela pela trama da história. O narrador precisa conhecer o público que vai ouvir aquela história para oferecer uma mensagem que faça sentido para o ouvinte. Não é fácil, pois para ouvir uma boa história é preciso concentração e o narrador precisa ter propriedade do que está falando, conhecer as informações que estão nas entrelinhas do conto. A história deve fazer parte do narrador até o momento em que ele não conta mais a história, mas canta. A mensagem flui de uma forma cantada, harmonizada, tocando o coração da sua audiência. É nesse momento que percebemos a sabedoria do contador, ao definir qual a mensagem que ele deseja transmitir para um público específico, naquele momento da narração.

Ler para os bebês aumenta vocabulário

Cáren Nakashima, 18/09/2010

A partir dos seis meses, hábito de ler para os bebês ajuda a formar melhor vocabulário e facilita alfabetização mais tarde

Foto: Getty Images
A partir dos seis meses, bebês já se beneficiam da leitura de livros

Quem pensa que ler livros e contar histórias é importante só para crianças maiores se engana. Ler para os bebês os deixa receptivos a palavras e sentenças mais complexas, além de apresentá-los aos livros como objetos e à ideia da linguagem escrita. No futuro, eles desenvolverão melhor linguagem, capacidade de interpretar histórias, começarão a ler com facilidade e associarão os livros a uma imagem positiva – e não à obrigação de estudar. “Bebês que ‘leem’ com os pais crescem entendendo que livros são fontes de prazer e informação, porque estão com eles em uma situação gostosa – seja nos seus braços ou no colo, ouvindo a sua voz favorita”, resume a americana Perri Klass, pediatra, jornalista e escritora.

A Academia Americana de Pediatria recomenda a leitura diária para as crianças desde os seis meses de idade. Na última Bienal do Livro, o impacto da leitura sobre o desenvolvimento cognitivo e da linguagem dos bebês foi tema de um seminário, que apontou conclusões de estudos internacionais. Entre os dados, ao entrar na escola, as crianças de três anos que já possuem o hábito de leitura em família apresentam um vocabulário 300% maior que aquelas que não cresceram entre as brochuras.

“Embora ainda não existam pesquisas nacionais sobre o tema, os estudos que vêm sendo desenvolvidos em outros países se aplicam para o Brasil, afinal a natureza humana e o processo de desenvolvimento são universais”, diz o psicólogo e educador João Batista Oliveira, presidente do IAB (Instituto Alfa e Beto), que dissemina e promove políticas e práticas de educação. João fala de evidências científicas que provam que o hábito da leitura, se desenvolvido desde cedo, tem influência positiva não apenas sobre a alfabetização, mas também sobre o desenvolvimento cognitivo em geral – o que é fundamental para o sucesso na escola.

Vantagens

Ler desde cedo para o seu filho o ajuda na familiarização com as letras, características da escrita, sons, segmentação das palavras em sílabas. “Mais adiante, a criança identificará fonemas e compreenderá como funciona o sistema alfabético”, diz.

Os benefícios não param por aí. Cultivar o hábito da leitura desde cedo estreita os laços entre mãe e filho. “Os laços se fortalecem por meio de interações regulares, sensíveis e amorosas. Esta aproximação positiva reforça a saúde emocional, o que ajudará a criança, no futuro, a se empenhar na escola”, conta o professor e pesquisador americano da Universidade de Vanderbilt, David Dickinson.

Para o especialista, quanto mais cedo a capacidade de linguagem é desenvolvida por leituras regulares, mais cedo os pequenos começarão a ler. “Além do mais, com a leitura frequente a criança aprende a ter foco e concentração, uma vez que a mãe a mantém prestando atenção no livro”, completa.

Para seu filho gostar de ler

Camila de Lira, 04/12/2010

Foto: Getty Images
Pais devem ler para seus filhos e para eles mesmos, indicam autores

Autores consagrados de livros infantis defendem: para incentivar a leitura nas crianças, é preciso deixar que elas escolham

O que Pedro Bandeira, Angela Lago e Ana Maria Machado tem em comum? Além de todos serem autores infantis de sucesso, eles concordam em uma coisa: só se pode incentivar crianças a ler se os adultos também lerem. E para eles a criança precisa descobrir qual forma e por qual meio prefere ler. “Não conheço uma criança que não goste de histórias”, diz a ocupante da cadeira número 1 da Academia Brasileira de Letras Ana Maria Machado, autora de mais de cem livros – entre eles “Menina Bonita do Laço de Fita” (Editora Ática).

Os autores ressaltam a importância de se contar histórias para as crianças antes mesmo que elas aprendam a ler. Ângela Lago, autora de “Cenas de Rua” (Editora RHJ), destaca que uma criança que compreende uma história consegue entender os diálogos da vida.“Os pais que contam histórias para as crianças vão formar leitores. Leitores de tudo: da vida, do dia a dia, do outro, do teatro, do cinema, da TV, da internet”, afirma Ângela.

Nesse ponto, Ana Maria diz que a leitura de quadrinhos pode ajudar em muito. “É mais difícil ler quadrinho que livro. O quadrinho exige que você saiba quem está falando, e a criança tem que perceber as relações temporais, é uma narrativa muito mais complexa”, diz. Pedro Bandeira, autor de “O Fantástico Mistério de Feiurinha” (Editora FTD), diz que os pais precisam deixar que a criança leia tudo, sem preconceitos. Só assim a sua curiosidade vai ser saciada.

De acordo com Ângela, é importante que as crianças escolham os livros por si mesmas. “Todo o livro pode ser fechado na página 2 ou 3, não tem importância. Há livros demais, e as crianças irão encontrar algum que goste”, diz. “Não existem maus livros. Mal faz não ler”, completa Pedro. Por isso, é bom que os pais deixem que os filhos entrem em contato com livros diferentes.

Como é complicado que os pais saibam e até tenham os um grande número de títulos, a escola se torna fundamental. Os autores afirmam que o papel da escola é tanto pré-selecionar alguns livros para as crianças, quanto prover um ambiente de leitura. Ângela Lago destaca a importância da biblioteca na formação de leitores. “A leitura não está presa ao consumo, ela requer uma escolha de qualidade e um tempo grande para absorver. As crianças aprendem isso na biblioteca”, diz.

Assim, a internet também pode servir como uma plataforma para que as crianças tomem gosto pela leitura. “A internet é mais um meio escrito. Meio bastante rápido. Antigamente, tinha que procurar numa enciclopédia, que normalmente estava desatualizada”, diz Pedro Bandeira. A preocupação de que ela vai substituir o livro, segundo Ana Maria, é descabida. “A internet vai substituir o livro de consulta, o dicionário, mas não a ficção”, completa.

Segundo os autores, de nada valem todos esses esforços se os pais não lerem para eles mesmos. “Uma criança tem a tendência de comer com a mão. Ela só usa talheres porque vê os pais usando. É a mesma coisa com os livros”, resume Ana Maria.

Ziraldo: “Fora do livro não há salvação!”

Camila de Lira, 04/12/2010

Os vários livros de Ziraldo atravessaram gerações e isso não é nenhum mistério. Outra coisa que não é um mistério para o autor é o segredo para fazer com que as crianças leiam. “Para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela”, afirma.

 Foto: Ismar Ingber
"O homem só chegou à lua porque, depois de Gutemberg,
todo mundo teve acesso ao livro", afirma o autor

O criador do “Menino Maluquinho” defende que as escolas fundamentais deveriam se preocupar apenas em ensinar a leitura, a escrita e a compreensão dos textos, como ponto de partida para o aprendizado contínuo. “O resto, a vida, o ginásio e a universidade depois organizam e ensinam”, diz. Quando o assunto é internet, Ziraldo não se opõe, mas afirma temer que a tecnologia substitua os livros.

Confira a entrevista concedida ao iG Delas.

iG: O que os pais podem fazer para incentivar a leitura nas crianças?

Ziraldo: Passei mais de vinte anos atrás desta resposta. Até encontrá-la. Juro! Para que a criança goste de ler, leia com ela, leia para ela. Histórias para crianças eram chamadas – na época em que não havia televisão, cinema e rádio (pelo menos na Inglaterra, um país de leitores) – de bedtime stories. Eram os pais que liam os livros que estimularam, por exemplo, as Irmãs Brönte a se transformarem em grandes escritoras. Os pais e os educadores não podem fazer ideia de como é importante a presença do que se pode chamar de literatura na vida de seus filhos e alunos.

iG: E o que a escola pode fazer?

Ziraldo: A leitura é a minha preocupação imediata. É quase uma obsessão do locutor que vos fala. Eu acho que a escola fundamental brasileira devia largar tudo e ensinar só quatro coisas às crianças brasileiras, até que elas estivessem equipadas para receber o ensino curricular e aquilatar informações recebidas. As quatro coisas são: ler, escrever, contar e entender o que é ser cidadão. O resto, a vida, o ginásio e a universidade organizam e ensinam depois. O Brasil devia decidir o seguinte: a partir de hoje nenhuma criança brasileira cresce sem dominar esses quatro temas. No final do século não teríamos um só analfabeto no Brasil. E teríamos um povo capaz de escolher com lucidez o seu destino.

iG: Qual a importância dos livros?

Ziraldo: Vamos deixar de falar em literatura e falar de livros. Livros de histórias, livros que contam casos, que despertam a curiosidade das crianças para o mundo. Para fazer um país justo e feliz, bom para os filhos e os filhos dos filhos, um povo tem que saber escolher. E só se aprende isto através da palavra escrita. O homem só chegou à lua porque, depois de Gutemberg, todo mundo teve acesso ao livro e ao conteúdo que eles preservam. Fora do livro não há salvação!

iG: E a internet: facilita ou dificulta que as crianças leiam mais? Por quê?

Ziraldo: A internet é o espaço de comunicação universal de mais fácil acesso que existe no mundo. Não existe o usuário de internet, assim como existe o flamenguista, o corintiano, o comunista ou os religiosos. Não é uma categoria. Trata-se de um pedaço da humanidade que navega ali, sem aproveitar o que ela tem de melhor: a capacidade de nos passar toda e qualquer informação que procuramos.

iG: A internet pode ser usada a favor da leitura? Como?

Ziraldo: Existem sites especializados em leitura online. Alguns excelentes, onde é possível encontrar grandes obras de grandes autores. Acredito que seja uma forma de estilmular a leitura, você não acha? Apenas espero que o livro não perca, para a tecnologia, sua importância na história.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A Importância da Leitura - João Scortecci

Ler é importante.

Até os que não praticam o “ler é importante” reconhecem o seu valor como modelo eficiente na busca do conhecimento individual e também coletivo, essencialmente universal.

Hoje existem diversas outras maneiras também eficazes para a obtenção do conhecimento, mas a leitura é ainda o melhor dos caminhos. O hábito, do qual tanto se fala como necessidade para o gosto pela leitura, lembra o de um corpo que aos poucos vai ganhando, com exercícios, o que chamamos de condicionamento físico.

Ler também é divertido. Ou não é? A leitura de um bom livro lembra paixão. Um bom livro não se larga, não se abandona, não se esquece. É assim que paixão vira amor.

O início – como tudo na vida – não é fácil. É preciso vontade. Opções mais sedutoras acabam nos levando para o menos trabalhoso. O pecado da preguiça opera desculpas e faltas disso e daquilo, provocando em nós o aparecimento do que chamamos de silêncio cultural. Silêncio cultural é a mesma coisa que falta de conteúdo. Corremos o risco de uma geração que só lê manchetes e links, que nem sempre, em sínteses, expressam o cerne da questão.

Antes que eu esqueça, do que deve ser lembrado, é que o tal hábito da leitura passa pelo esforço das partes (mercado, profissionais do livro e governo) e de todos os agentes (professores, intelectuais e leitores). Não há educação quando a ignorância habita a família, a escola, o trabalho, os governos. Não há leitura sem o comprometimento do livro com suas mais diversas ferramentas. O livro precisa colocar-se aos olhos. Ele é mágico, oportuno e pluriapto. A inclusão cultural pela leitura deve, e precisa, passar pela coragem política do mundo real e virtual.

O livro pode até acabar, na forma como hoje o conhecemos, na plataforma papel, mas a leitura não. Exclusão tem cura quando não é doença. Adentrar em uma livraria não precisa ser um desafio incomum.

Outro dia – ainda na minha adolescência – quando descobri que “ler é importante” alguém desavisado me disse: Um país se faz com homens e livros. Foi Lobato quem me disse do papel para o meu profundo despertar. Naquela tarde incomum atendi ao seu chamado.

Depois escutei também os segredos de Alencar, Sabino, Clarice, Machado, Bandeira, Cecília, Drummond, Graciliano, Lygia, Cabral, Bilac, Rachel, Callado, Gullar e todos os outros Amados.

João Scortecci

O ato de ler – Por Inajá Martins de Almeida

 
Inajá Martins de Almeida

Dê-me uma meada de lã e eu teço um agasalho.
Dê-me uma palavra e eu formulo uma frase.
Dê-me uma frase e eu escrevo um texto.
Dê-me um texto e eu componho um livro”. (1)

Definições, conceitos, significações, frases, textos, livros, são atributos de que nos valemos, quando nos predispomos a fazer uma pesquisa mais acurada de algo que queremos conhecer melhor.

Definimos, conceituamos, buscamos significados, formulamos frases, elaboramos textos, compomos livros, tudo para perpetuar nossa idéia e percebemos que:

"Os livros que em nossa vida entraram, são como a radiação de um corpo negro, apontando pra expansão do Universo, porque a frase, o conceito, o enredo, o verso (e, sem dúvida, sobretudo o verso) é o que pode lançar mundos no mundo". (4)

O livro que entra em nossa vida, portanto, já não é mais o mesmo: já deixou de ser estático num canto da estante; agora, ele, descortinou novos horizontes para nós; já nos enriqueceu um pouco mais; já nos tirou da ignorância verbal e oral; já nos transformou; já nos cativou; já se tornou responsável por aquele que cativou.

Ah! Bendito os que semeiam livros ... livros a mão cheia ... e faz o povo pensar ... em verso cantava Castro Alves e, se bendito são os que semeiam livros, abençoados são os que lêem, os que pensam, os que informam, os que se informam, os que transformam, os que se transformam.

Percebemos, contudo, que antes mesmo de lermos a palavra, já lemos a imagem; Paulo Freire diz que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, porque na realidade estamos lendo o que nos permeia, tudo o que está a nossa volta é uma leitura que se faz, de acordo com quem olha.

“Mas uma vez que nos tornamos leitores da palavra, invariavelmente estaremos lendo o mundo sob a influência dela, quer tenhamos consciência disso ou não. Nesse momento, a leitura, até então oral e ágrafa, amplia-se, oferece-nos outras perspectivas para ler o mundo. Dá-nos condição de encontro com novas maneiras de interpretar a sociedade, seus conflitos e a própria natureza humana. A partir de então, mundo e palavra permearão constantemente nossa leitura e inevitáveis serão as correlações, de modo intertextual, simbiótico, entre realidade e ficção”. (5)

Mas afinal, por que lemos?

Lemos porque a necessidade de desvendar caracteres, letreiros, números, faz com que paremos a olhar, a questionar, a buscar decifrar o desconhecido. Antes mesmo de ler a palavra, já lemos o universo que nos permeia: um cartaz, uma imagem, um som, um olhar, um gesto:

"Lemos, intensamente por várias razões, a maioria das quais conhecidas: porque na vida real, não temos condições de "conhecer" tantas pessoas, com tanta intimidade; porque precisamos nos conhecer melhor; porque necessitamos de conhecimento, não apenas de terceiros e de nós mesmos, mas das coisas da vida", argumenta Harold Bloom. Embora considere "a busca de um prazer sofrido" como o principal motivo quando se lê. São muitas as razões para a leitura. Cada leitor tem a sua maneira de perceber e de atribuir significado ao que lê”. (6)

Para que lemos?

Lemos para nos comunicar; para resolver uma questão proposta por nós ou por alguém; para nos aperfeiçoar; para nos informar; para adquirir mais conhecimento; para saciar nossa sede do saber; para recreação, quem sabe: cada um sabe para que lê. Leonardo Boff nos diz que cada um lê com os olhos que tem. E “a melhor maneira de se ensinar uma criança a ler é lendo” nos fala a escrita Ana Maria Machado.

O que lemos?

Uns lêem cartas geográficas, outros cartas de informação – como a carta do descobrimento do Brasil. “Caminha não podia imaginar que sua carta se tornaria, principalmente no século XX, uma das fontes de inspiração para romancistas e poetas brasileiros” (7); outros tantos cartas de amigos.

“As cartas fascinam tanto porque são parte da expressão humana. Porque nelas estão as fraquezas, os bons augúrios e, quase sempre, espelhos da alma de quem as escreve. Quando as lemos, é como se fôssemos ouvindo o remetente em nosso ouvido a conversar conosco. É como se Mário falasse conosco. Ler as cartas que Mário escrevia a seus amigos é encontrar um pouco com a alma do nosso povo, de nós mesmos. Sua prosódia oscila entre o popular e o erudito, embala o leitor em sua linguagem, deixa-o confortavelmente deleitar-se com sua escrita”. Numa delas, esta a Carlos Drummond de Andrade, dizia “só nos domingos que posso escrever. Tenho atualmente a vida mais deliciosamente burguesa que a gente pode imaginar. Sou homem de domingos. Só no domingo que me divirto, visito os amigos, escrevo pros de longe visto roupa nova e descanso ... São onze horas do dia. Tenho meia-horinha pra você ...” (7).

Se lemos gibis, poesias, jornais, textos científicos, textos literários, textos... livros... enfim, não importa o que lemos, se lemos por algum motivo ou razão. “Primeiro devemos deixar ler, para depois orientar, porque ler é um direito do cidadão e da criança”, exorta nossa imortal da literatura infantil Ana Maria Machado.

Porque lemos realmente dará sentido a todos os outros questionamentos, pelo fato de que: “Ler é olhar o mundo para enxergar mais além do que o nosso interior. É entender o processo coletivo. É observar a tribo para analisar a globalização. É ler imagens para ultrapassar a aventura. É aventurar-se pelos escaninhos mais recônditos do subconsciente para entender a lucidez dos discursos que untados em votos (eletrônicos para serem modernos) prometem zerar qualquer coisa”. (8)

Nessa frase, parei por uns minutos mais prolongados em “ler imagens” e, um fato curioso, me fez retornar ao passado, quando então se pensou que esta – a imagem – substituiria a palavra, a partir de um slogan, veiculado através da televisão, onde se dizia que uma imagem valia mais do que mil palavras.

Ledo engano aquele; a palavra continuaria cada vez mais forte, sendo produzida em larga escala incessantemente porque, segundo nos premia Millôr Fernandes “a imagem só pode se transformar em instrumento de comunicação quando podemos dela falar - usando palavras”. (9)

E as palavras continuaram permeando o universo, conquistando espaços, ganhando mais e mais adeptos – seus leitores. Quem não se sente solto e livre a vagar pelo ar, a viajar sem sair do próprio lugar ao se deleitar com uma fantástica leitura – palavras, frases, textos ... – quem não se enriquece interiormente; quem não cresce em conhecimento e cultura; quem não se inquieta, não questiona, não se torna investigativo a querer galgar novas plagas, quebrar barreiras, ultrapassar fronteiras; quem não voa com asas de águia percorrendo parágrafos, grifando palavras, bailando, girando como folhas ao vento; quem não se torna livre ao ter um livro nas mãos. Quem não quer se aventurar por “mares nunca d’antes navegados”(10)

“São muitas as razões para a leitura. Cada leitor tem a sua maneira de perceber e de atribuir significado ao que lê. Essa particularização da leitura é que estimula, por meio de um processo artístico, emoções e vivências diferentes no leitor permitindo-lhe o conhecimento de si mesmo; o reconhecimento do outro, a descoberta do mundo”.(6)

Sim ... em meio a tanto questionamento “livros nos tornam livres” (11), na medida em que:

“Ler é alimentar-se espiritualmente, é adquirir aquela inquietação interior — bem como uma série de convicções — a indescritível riqueza íntima de quem está atento à vida, de quem carrega consigo a vontade de conhecer e amar infinitamente. (12)

E quem não se torna criança ao adentrar no mundo encantado do faz de conta, do era uma vez no País das Maravilhas da Alice; quem não se sente o próprio David ao derrotar o gigante Golias, personagens estes que ultrapassam o tempo, tornam-se presentes, jamais esquecidos, sempre lembrados, sempre lidos, sempre recontados – o tempo não os consumiu.

Ler é multiplicar a própria idade, é ganhar tempo, é expandir-se para todos os tempos, e, quem muito lê vai reunindo em si mais lembranças e conhecimentos do que se tivesse mil anos de idade. Vai se universalizando no tempo, e também no espaço. (12)

Numa fração de segundos, podemos retornar a infância, acordar de um profundo sono, como Bela Adormecida, ao beijo suave do príncipe encantado e se tornam felizes para sempre; aí se faz presente a arte, que toca o âmago do ser sensível – a arte da palavra, então:

“se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes a partir de uma palavra que, ao me encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso digo sempre: é a palavra que me escreve”. (13)

Se cada leitor percebe em cada palavra tantas outras, em cada leitura pode sentir a magia do encantamento que a arte proporciona, depreendemos que:

“Ler é uma arte, e, como toda a arte, requer do seu artista uma sábia flexibilidade, a capacidade de utilizar os meios de acordo com a finalidade primordial a ser alcançada”. (12)

Essa arte que quebra barreira, extrapola horizontes infindáveis, essa arte que nos tira do anonimato, que nos dá poder de investigação, de interagir na sociedade, de conquistar o inimaginável, sim

Ler é uma arte que pode ser de muitos, que pode nos devolver a nós mesmos. Ler é poder, é conhecer-nos e aos outros.(14)

Suzana, no artigo referenciado, cita palavras de Richard Bargenguer, extraídas do seu livro “Como incentivar o hábito da leitura” quando nos diz que:

“Ler é a tarefa do futuro, quando as pessoas necessitarão de uma espécie de auto-educação permanente ou seja: deverão promover a pesquisa, a reflexão, o crescimento intelectual por conta própria. Deverão desenvolver de modo autônomo sua competência, enfim”. (14)

Eu, contudo, não consigo ver um cidadão completo, que não saiba ler e interpretar as situações que o rodeiam, porque "quem mal lê, mal ouve, mal fala, mal vê", já nos alertava Monteiro Lobato.

Sob meu ponto de vista, uma vez que “cada ponto de vista é a vista de um ponto” (3), leitura não significa simplesmente o que os textos nos apresentam, mas qualquer percepção depreendida em nosso cotidiano: das conversas entre amigos, da fala do professor a nossa frente, da interpretação de um filme – o que os personagens nos transmitem através da tela – dos homens de Deus nos púlpitos ao ministrar a Palavra aos fiéis; leitura também é decifrar imagens.

Alberto Mangel, escritor argentino, entende a leitura como forma de decifrar sinais, interpretar códigos e se expressa:

“Eu vejo a leitura não apenas como um modo de entender textos, mas também de decifrar sinais. O ser humano é um decifrador de sinais. Nós interpretamos até mesmo códigos que não são feitos para serem lidos, como o relevo, o céu, o rosto das pessoas. (15).
A riqueza que nos proporciona o ato de ler e interpretar palavras, encontro nas Cartas que o apóstolo Paulo enviava às igrejas e cidadãos da sua época – esta aos Coríntios – uma passagem que, em especial, chamou-me atenção. Escrita há dois mil anos atrás, exortava o povo a se expressar de forma clara, dizendo que:

“... se com a língua não falardes palavras bem distintas, como se entenderá o que se diz? Estareis como que falando para o ar” e acrescenta dizendo que “há infinidade de sons e contudo nenhum sem sentido, e que se não soubermos interpretar esses sons, seremos como bárbaros para o que fala assim como bárbaro para o que ouve”. (16)

E chegando a atualidade, Gabriel Perissé, citando Bernardo Gusbanov, diz:

“Ler e compreender o que se lê é uma capacidade que deve ser desenvolvida. Quem não lê e não compreende o que lê está excluído socialmente. Torna-se uma pessoa com pobreza no uso do vocabulário e dificuldades de expressão, que se refletem tanto na vida social quanto profissional". (12)

Portanto, após tantas falas, depreende-se que

“Há mais valor na sabedoria do que na tolice, quanto mais valor na luz do que nas trevas...(17)

A era da informação, exige que avancemos incessantemente; o mundo globalizado pede pessoas cada vez mais preparadas para o mercado competitivo, e onde buscar essa preparação, a não ser através de leituras diversas. Não se concebe mais o cidadão com escolaridade básica, há que ter mais, tanto a que se conquista nos bancos acadêmicos, quanto e, principalmente, aquela que se busca através da “auto-educação”, como nos alerta Bargenguer.

“Na era da informação, não é simples ficar sintonizado e atualizado: o mundo dobra o conhecimento a cada dezoito meses e é preciso, portanto, correr atrás de atualização o tempo todo: comportamental, emocional, de mercado, de vida...” (18)

Não se permite mais esperar. “Esperar não é saber”, porque “quem sabe faz a hora e não espera acontecer”, já nos dizia o músico e compositor Geraldo Vandré na década de 60 – Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores (19) – quando, em plena ditadura militar, falando de flores, alertava o povo sobre a opressão que os soldados armados impunham, mas que caminhando e cantando, seguindo a canção interior poderíamos sim ensinar uma nova lição; mudar o curso da vida; contar a própria história: poderíamos ser, enfim, a própria história, porque:

“vem uma geração, e vai outra geração, mas a terra permanece eternamente... e os olhos nunca vêem o bastante, nem os ouvidos se enchem de ouvir”. (17a)

Porém, quando pensamos que geração vem e passa e que não temos tempo para ver, ouvir tudo o que gostaríamos, buscamos nas leituras várias, abstrair uma realidade distante e, ao lermos um livro, pensamos e criamos nossa própria realidade, porque cada leitor se torna um co-autor, uma vez que:

“cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque compreende e interpreta a partir do mundo que habita... Cada um lerá e relerá conforme forem seus olhos. Compreenderá e interpretará conforme for o chão que seus pés pisam... E para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura”. (3)

Contudo, para muitos, a leitura é um passatempo, para outros tantos um aprendizado incessante; para alguns, apenas um fardo para cumprir uma tarefa, muitas vezes imposta, muito embora transformar a leitura num dever, numa obrigação curricular, pode ser um equívoco” (9) porém, se pararmos para pensar que "a leitura é muito mais do que uma simples relação dos olhos com os livros... iremos perceber que, a leitura é um espaço, um lugar predileto, uma luz escolhida, um ritual em que importa até a época do ano."(20)

Há, também, quem diga que “leitura é essencial. Não mata a fome, sequer a de espírito como se insinua pois espírito não tem fome, mas mata a falta de lucidez, cria consciência” (8) e outro que "a leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil e o escrever dá-lhe precisão" (21)

O que podemos entender então! Entendemos sim, que somente através da leitura podemos desvendar o desvendável – o conhecimento; conhecimento esse que nos dá mais segurança para dialogar e até para expressar idéias, opiniões, interagir na sociedade, e com tudo isso, maior mobilidade para nos expressar através da escrita.

Torna-se imprescindível que se forme o hábito, da leitura, porque este, hoje, tornou-se “artigo de primeira necessidade.(9)

Através da palavra tudo se forma – “Haja luz ... e ouve luz ... (22)

Nas palavras há, portanto, força e, alerta-nos o pensador Confúcio “sem conhecer a força das palavras é impossível conhecer os homens”, porque "quem não vê bem uma palavra não pode ver bem uma alma", como complementa o poeta português Fernando Pessoa.

“No princípio Deus criou o céu e a terra ... e a terra estava sem forma e vazia... e Deus disse: haja luz; e houve luz” (22)

Para que haja uma criação é necessária uma vontade: a vontade de criar algo, assim

“A palavra não cria as coisas do nada. Mas retira, sim, as coisas da sombra, do esquecimento, do exílio, ou do passado, ou do futuro. As palavras são embaixatrizes da realidade. Elas trazem para o nosso meio todo o universo. Trazem reinos, aves exóticas, estrelas do céu, flores de aromas impensáveis, anjos, demônios. Falamos a palavra, e o universo responde ao chamado, e os mortos ressuscitam, e nós mesmos nos iluminamos”. (12)

O que é então o ato de ler senão tomar posse do texto, do livro. Livro que nos fala por meio das palavras. Palavras que vão tomando forma e cor, aos olhos atentos do leitor. Palavras que podem descobrir as vozes dos enredos, as cenas que desfilam através das entrelinhas do texto.

Jean Paul Sartre, extasiado com a interpretação que sua mãe fazia, ao contar-lhe histórias para embalar-lhe o sono, premia-nos com o texto As palavras, onde nos transporta, também, para aquele rosto que transformava-se a cada fala; para aquela voz que ele desconhecia e por fim, para aquela resposta aos porquês daquela performance:

“daquele rosto de estátua saiu uma voz de gesso. Perdi a cabeça: quem estava contando? O quê? E a quem? Minha mãe ausentara-se: nenhum sorriso, nenhum sinal de conivência, eu estava no exílio. Além disso, eu não reconhecia sua linguagem. Onde é que arranjava aquela segurança? Ao cabo de um instante, compreendi: era o livro que falava. (23)

Uma “leitura bem feita é uma inteligente e apaixonada conversa com o autor” e, quando “consciente, empenhada, reflexiva, desperta a vida do livro, aciona toda aquela fecundidade que o autor nos legou ao concluir o seu trabalho e que permanece ali, nas páginas impressas... “(12)

Sim, o livro nos fala, quando percebemos que a “leitura é um diálogo profundo e uma intensa experiência de vida, na medida em que põe o leitor no interior de “realidades”, de “ambientes”, de “idéias” e de “pessoas” — criados ou recriados pelo cronista ou pelo memorialista, enfim, pelo autor que esteja sendo lido”. (12)

E, quando do término de uma leitura, jamais devemos questionar o que o autor nos quis dizer, e sim o que sentimos, uma vez que “em educação, a emoção precede a cognição, e a cognição ajuda a despertar mais emoção”. (9)

Em assim pensando, após tantos momentos, tantas reflexões, não nos permitimos mais “viver sem razão” (19);

“precisamos nos tornar uma nação leitora, porque o cidadão comum de uma nação moderna, é alguém que chega à vida adulta, capacitado para ler e entender manuais, embalagens de produtos, instruções de uso e advertências, relatórios, poesias, formulários, atlas, contos, gráficos, tabelas, artigos de jornal e revista e todas as demais formas da escrita cotidiana impressa ou eletrônica”.(24) e, “Ler com atenção, a rigor, significa compreender. E compreender significa também interpretar, discernir, captar em profundidade, discordar, ampliar...” (12)

Porque

“Entender um texto é compreender claramente as idéias expressas pelo autor para, então, interpretar e extrapolar essas idéias. Nesse momento o leitor deve ajustar as informações contidas no contexto em análise às que ele possui em seu arquivo de conhecimento”. (2)

Quando se pensa então em “arquivo de conhecimento”, pressupõe-se que muitas informações foram buscadas; muitas leituras foram feitas, muitos foram os conhecimentos adquiridos e armazenados nos escaninhos do cérebro.

A medida que adentramos o universo da leitura, descortinando autores, e temas os mais variados, percebemos que vamos nos familiarizando cada vez mais com a palavra, que, com intimidade passeia, rodopia, baila suavemente em nossa mente ávida pelo conhecimento, porque “o prazer da leitura de um texto não pode ser avaliado. É coisa subjetiva; quem ama ler tem nas mãos as chaves do mundo”. (25)

“... para ser ‘leitor útil’ há que existir a vontade, o desejo de ler, em primeiro lugar, mas também são necessários livros para serem lidos, uma quantidade e variedade suficientes para que cada um eleja o seu gênero predileto, os seus temas, os seus enredos, os seus “clássicos”, aqueles livros que nunca acabam de dizer o que têm para dizer, como definiu Ítalo Calvino. Livros que “viciem” o leitor, pois a leitura inquieta, desloca, preenche, responde, diverte, cria novas perguntas, possibilita usos pessoais da criação de um escritor”. (26)

De todos os prazeres – a música, a dança, o cinema, passeios diversos – o mais inebriante para mim é a leitura; percebi, desde muito cedo, que esta realmente pode influenciar grandes mudanças, grandes transformações – a leitura dá poder, que vai além do simples prazer de ler por ler: “leitura pressupõe busca de informação”(2)

Pensar nesse universo – da leitura – é jamais cair no marasmo, na mesmice; é jamais se entediar, uma vez que para cada leitura, podemos fazer novas releituras, aprendendo, ensinando, enriquecendo-nos, porque “os livros têm seu próprio destino... o destino dos livros está ligado ao destino dos leitores”, assim eu os convido a fazerem-se co-criadores “do mundo criado e por criar”, conforme nos convida Leonardo Boff.(3)

Podemos perceber, então, que o ato de ler, está atrelado a maneira com que cada leitor o faz, uma vez que a cada leitor o seu livro, a cada livro seu leitor, como nos orientava o grande bibliotecário Ranganathan, nas suas Leis da Biblioteconomia, que o bibliotecário tão bem conhece.

INAJÁ MARTINS DE ALMEIDA
Bibliotecária e Consultora da iMa – Consultoria da Informação e Informática Especializada (http://www.ima.filosophos.com/inajamartins@filosophos.com), bibliotecária e coordenadora de projetos na Fundação Educandário Coronel Quito Junqueira e presidenta da ONG Educare Est Vita.

BIBLIOGRAFIA

(1) ALMEIDA, Inajá Martins de: Retalhos de Leituras (extrato de texto em composição)
(2) FAUSLSTICH, Enilde L. de J. – Como ler, entender e redigir um texto. Petrópolis, Vozes, 2002
(3) BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis: Vozes, 1997.
(4) VELOSO, Caetano - Livros (Internet http://mundodediadema.blogspot.com/2005/06/livros.html)
(5) SILVA, Rovilson José da - Mundo e palavra: leituras que se completam (Abril/2003). (Internet http://www.ofag.com.br/)
(6) ___________________ - Leitura, leitores e significação. (março 2003). (Internet http://www.ofag.com.br/)
(7) __________________- Expressão pessoal e artística das cartas. (Março/2004). (Internet http://www.ofag.com.br/)
(8) LIMA, Justino Alves: Leitura Zero - Artigo publicado no Jornal da Cidade, Coluna Opinião, B-2, Aracaju, 01.03.2003 (Internet http://www.ofag.com.br/)
(9) SCLIAR, Moacir – Que leitores queremos? Correio Braziliense, 11/3/2006)
(10 CAMÕES, Luis Vaz de – Os lusíadas
(11) LOBATO, Monteiro - citação
(12) PERISSÉ, Gabriel - Ler, pensar e escrever. http://www.perisse.com.br/Ler_Pensar_Escrever_o_livro.htm
(13) QUEIRÓZ, Bartolomeu Campos Queiróz - “Diário de Classe”
(14) VARGAS, Suzana – A arte de ler em grupo ou vamos ler juntos? (Internet http://www.estacaodasletras.com.br/leitura_livros.asp)
(15) ALVES, Rodrigo. Atrás das imagens, as palavras. jbonline.terra.com.br - Jornal do Brasil. 4 de setembro 2001 (entrevista com Alberto Manguel – escritor argentino)
(16) Paulo – 1ª Carta aos Coríntios capítulo 14 versículos 9 à 11 (Bíblia Sagrada)
(17) Eclesiastes – capítulo 2 versículo 13 (Bíblia Sagrada)
(17a) _________- capítulo 1 versículos 4 e 8 (Bíblia Sagrada)
(18) FILIAGE, Miguel Angelo. A fantástica r-evolução de um gerente: a história de um profissional que deu a volta por cima. São Paulo, Editora Gente, 1998.
(19) VANDRÉ, Geraldo – Pra não dizer que não falei das flores (letra e música popular brasileira década 60 (http://www.pseudosite.hpg.ig.com.br/letras/geraldo) e outros tantos sites
(20) MONTERO, Luis Garcia – poeta espanhol, citação
(21) B(21) BACON, Francis - filósofo francês, citação
(22) GÊNESIS – capítulo 1 versículo 3 (Bíblia Sagrada)
_______ - capítulo 1 versículos 1 à 3 (Bíblia Sagrada)
(23) SARTRE, Jean Paul – As Palavras. In: LOPES, Vera e LARA, Anésia: Tudo dá trama: língua portuguesa: manual pedagógico 8ª série. Ed. Dimensão. Págs. 43-45.
(24) DE FIORE DI CROPANI, Ottaviano - Livro, biblioteca e leitura no Brasil. Secretário de Política Cultural do Ministério da Cultura. Brasília, 12 de agosto de 1998 (texto extraído da Internet - (www.minc.gov.br/textos/of01.htm)
(25) ALVES, Rubem – Dígrafos. (Internet http://www.ofag.com.br/)
(26) PIACENTINI, Tânia – Da importância de livros e leituras. Dobras da Leitura: revista eletrônica. Edição nº 33 – Ano VII, maio de 2006 (Internet: http://www.dobrasdaleitura.com/)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Biblioteca Raízes", uma biblioteca na praça em Araçatuba

Claudio Hideo Matsumoto

Frequento com certo assiduidade algumas praças de nossa cidade. Principalmente, a Praça Antonio Villela Silva, localizada na Av. Brasília ou a Praça dos Rotarianos, localizada defronte ao Jornal Folha da Região, no Jardim Nova Iorque. Nos finais de semana, levo os meus filhos para brincar nos playgrounds existentes no bairro.

Toda semana utilizo a Av. Brasília para ir ao trabalho. Nesta semana o que mais chamou a minha atenção foi a biblioteca montada pelo Colégio Geração Raízes, na Praça Antonio Villela Silva.

Os caixotes de madeira montado como fossem estantes. Livros, revistas e brinquedos organizados com todo esmero. Tudo disponível de graça para quem passasse pela avenida ou praça.

Tinha o banner explicando o objetivo da biblioteca na praça. Trecho extraído do banner: “[...] para que todos que passem pela praça possam descobrir um mundo novo por meio da leitura”.

O mais legal da leitura do banner foi o incentivo que o colégio deu aos alunos em promover a campanha de arrecadação de livros. Estimular as atividades em prol do social e coletivo.

Sou bibliotecário fiquei super feliz em ver essa iniciativa. Espero que mais e mais iniciativas como essa espalhem pela nossa cidade.

Parabéns ao Colégio Geração Raízes pela inicitiva.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Leitura faz bem para o corpo

Matéria publicada no jornal "O Liberal" em 16 de março de 2010

A Biblioterapia é uma das ferramentas utilizadas no tratamento dos internos do Hospital Universitário Barros Barreto

Alexandra Cavalcanti
Da Redação

Além de proporcionar bons momentos, a leitura também pode ajudar na superação de momentos difíceis. Esse é o ponto de partida para o trabalho desenvolvido pelo Projeto “Biblioterapia”, no Hospital Universidade João de Barros Barreto (HUJBB), em Belém. A técnica é antiga, mas ainda pouco conhecida no país e estimula tanto pacientes internados quanto seus acompanhantes à leitura de livros, revistas e jornais, ajudando-os a lidar melhor com o ambiente hospitalar.

O projeto começou em 2003 partindo do princípio de que uma boa leitura pode amenizar as pressões do dia a dia, inclusive de quem está em tratamento médico. “A dinâmica desse trabalho é aliviar as tensões dos pacientes internados e de seus acompanhantes. Tirar um pouco do foco da doença e levar para a leitura, porque a rotina hospitalar pode causar, entre outras coisas, irritação e até depressão”, explica a coordenadora do projeto e bibliotecária Rosiany Silva.

A primeira parte do projeto consiste em colher informações sobre os assuntos que interessam a esse público alvo. “Visitamos as enfermarias para saber previamente qual tipo de leitura chama atenção dessas pessoas, tanto pacientes quanto acompanhantes”, ressalta a coordenadora. A partir daí, esse material é separado para as ações do projeto.

Nessas pesquisas, para a sur-presa dos envolvidos, algumas curiosidades foram desco-bertas. Uma delas é que leituras relacionadas à agricultura familiar estão entre as preferidas. “Temos muitos pacientes que vêm do interior do estado e esse tipo de leitura faz parte do universo de onde vivem”, explica. Mas também é grande o número de pessoas que se identifica com outros assuntos, como direito tra-balhista, textos didáticos sobre determinadas doenças, além de literatura brasileira e infantil. “Na pediatria especialmente trabalhamos bastante com os contos de fadas e com gibis”, afirma.

Para acompanhar a limitação de alguns pacientes, a coordenadora conta que são u-sadas outras dinâmicas, sempre com a colaboração de voluntários. “O Hospital Barros Barreto é de alta complexidade, por isso, atendemos casos bem específicos, como por exemplo, pessoas que sofrem de diabetes e perderam a visão. Nessas situações, o monitor faz a leitura para esse paciente. O mesmo acontece no caso de analfabetos e pessoas com outras dificuldades para a leitura. Utilizamos também CDs e levamos o rádio até o paciente para que ele possa ouvir histórias”, ressalta Rosiany.

Em Belém, o projeto desenvolvido no Hospital Universitário ganhou ainda um reforço extra. Além da leitura de livros e periódicos, o trabalho utiliza recursos audiovisuais. “Fazemos também sessão de cinema, dinâmicas de grupo e até mesmo sessões de anedotas, que eles gostam bastante”, conta a bibliotecária. O importante, segundo ela, é o uso da linguagem cultural para motivar os pacientes e acompanhantes em ambiente hospitalar.

A biblioterapia não promete milagres e não tem ainda uma comprovação científica sobre seus benefícios, mas ao longo de sete anos, vem colhendo bons resultados. “Temos depoimentos e relatos de experiências muito positivas. Casos, por exemplo, como de pacientes que não interagem com o médico durante o tratamento, seja por timidez ou outro motivo, mas que passam a ter um outro comportamento depois de participar das ações do projeto”, conta.

O retorno também aparece de outras formas. “Alguns pacientes ou acompanhantes participantes do projeto pedem para levar o livro para casa, porque gostaram da leitura e querem levá-la para suas comunidades. Isso é muito bom e nos deixa muito satisfeitos com esse trabalho”, afirma a coordenadora.

Projeto muda a visão do hospital

Para a biblioterapia, a leitura funciona como “alimento da liberdade”, tal como afirmou Fernando Pessoa através de seu heterônimo Álvaro de Campos. Lendo, a pessoa se distancia dos redemoinhos e dos turbilhões das emoções vividas em determinado momento. No ambiente hospitalar, esse efeito não é diferente. Ao invés de sentimentos de ansiedade, agressividade, angústia, tristeza, medo e outras reações devido à doença ou mesmo ao afastamento de casa, o paciente pode entrar num ambiente de bem estar físico, mental e espiritual.

“Esse projeto traz como contribuição uma ideia mais positiva do Hospital como espaço não apenas de sofrimento, mas também de lazer, aprendizado e troca de experiências quando em contato com a leitura e com outras pessoas”, conta a coordenadora do Projeto. A bibliotecária Vera Carvalho, uma das primeiras a trabalhar no projeto dentro do hospital explica que há o envolvimento de equipe multiprofissional, composta por bibliotecário, assistente social, psicólogo, terapeuta ocupacional e bolsistas de biblioteconomia e serviço social. O grupo disponibiliza livros, revistas e jornais de acordo com uma temática definida e o paciente escolhe o tipo de leitura com a qual mais se identifica.

Além dessas leituras, os pacientes também participam de palestras e exibições de filmes sobre educação e saúde, contação de histórias, leitura de mensagens, audição de músicas e textos de autoajuda, peças de teatro, pintura, entre outras atividades, com a finalidade de melhorar o seu estado emocional. “Desde o início, quando ele foi implantado pela Dra Elisa Sá, o projeto sempre foi bem aceito pelos pacientes e seus acompanhantes, porque se tornou uma forma atrativa deles saírem daquela rotina de hospital. Lembro ainda do primeiro filme que exibimos dentro do projeto, foi o „Auto da Compadecida‟. Todos gostaram e riram bastante”, relembra.

O Projeto trabalha com crianças, pacientes adultos e idosos internados no Hospital Universitário João Barros Barreto, dando preferência aos de longa permanência, os que não recebem visitas ou estão desacompanhados. “Percebemos que, além da melhoria do estado físico, o hospital pode contribuir para a elevação da autoestima e até para mudança de comportamento por meio de diferentes formas de ação, como a leitura”, assegura Rosiany da Silva.

No ano passado, o projeto ganhou uma sala própria dentro do hospital, onde são guardados todos os materiais usados, desde livros, revistas, material lúdico, entre outros, tudo fruto de doação.
 
Serviço

Quem quiser fazer doação de materiais para o projeto pode procurar o setor de Biblioterapia do Hospital Universitário João de Barros Barreto.
 
Fonte: jornal "O Liberal"

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Projeto Ler e Pensar lança livro sobre a importância da leitura na escola

Objetivo é contribuir para que outros educadores tenham novas ideias e também estimulem a leitura em suas salas de aula.

Leitura: o mundo além das palavras, é primeiro livro do projeto Ler e Pensar, do jornal Gazeta do Povo (PR) e do Instituto RPC. Lançado em outubro, a publicação é a grande inovação do projeto em 2010: relaciona práticas desenvolvidas em sala de aula, por diversos professores do Ler e Pensar, com ensaios escritos por especialistas que contribuiram com o projeto ao longo dos últimos dez anos.

Desde 2001, afinal, o Ler e Pensar sempre procurou estimular a leitura como prática cotidiana de professores, vendo nesta iniciativa o caminho para a formação de cidadãos críticos e alunos melhor formados e informados. Utilizando o jornal como um recurso para isso, a experiência do Ler e Pensar oferece aos professores uma revisão de metodologias e aprendizado de novas formas de trabalho.

Agora, muito dessa história foi transformado em um livro no qual teoria e prática estão relacionadas em temas inovadores – como a Ciberleitura – e desafiadores – como a leitura no período de alfabetização, ou a formação de leitores críticos. A pequena edição, distribuída aos presentes no evento e enviada às Secretarias Municipais de Educação participantes do Ler e Pensar, serve para reconhecer boas iniciativas de professores, que fazem do incentivo à leitura uma missão de vida.

Confira, a seguir, os temas apresentados no livro e descubra, você também o mundo além das palavras. Para ler o livro em PDF basta acessar o link:

Leitura: o mundo além das palavras

Leitura: o mundo além das palavras, é primeiro livro do projeto Ler e Pensar, do jornal Gazeta do Povo (PR) e do Instituto RPC. Lançado em outubro, a publicação é a grande inovação do projeto em 2010: relaciona práticas desenvolvidas em sala de aula, por diversos professores do Ler e Pensar, com ensaios escritos por especialistas que contribuiram com o projeto ao longo dos últimos dez anos.

Confira, a seguir, os temas apresentados no livro e descubra, você também o mundo além das palavras. Para ler o livro em PDF basta acessar o link: http://www2.rpc.com.br/clientes/irpc/portal/Files/News/file/livro-leitura.pdf.

Alfabetização e Letramento

O primeiro capítulo do livro debate o incentivo à leitura durante o período de alfabetização. Quem encara o desafio de teorizar sobre o assunto é a professora Angela Mari Gusso, doutora em Estudos Linguísticos, ex-professora da Rede Municipal de Ensino de Curitiba e docente em cursos de graduação e pós-graduação.

A teoria de Ângela é passada à prática por Elenice da Cruz Gonçalves, professora da Escola Rural Municipal de Santa Bárbara de Cima, em Palmeira. Utilizando o jornal com alunos em fase inicial de alfabetização, Elenice relaciona elementos lúdicos para estimular a leitura e alguns de seus bons resultados são relatados no livro.

Apropriação da Leitura Crítica

O desafio de ler criticamente exige, no mínimo, informações comparativas, fontes históricas, referências e análise de cenário. É isto o que aponta o jornalista e doutor em Literatura Brasileira, José Carlos Fernandes, professor em cursos universitários e jornalista da Gazeta do Povo, desde 1989.

Na Escola Municipal Germano Paciornick, de Curitiba, a professora Janisse Cordova Dornelas da Costa conseguiu aplicar a ideia da leitura crítica para alunos da 4ª série, fazendo das suas aulas um momento para promover mudanças nas atitudes e no modo de pensar dos alunos, e provando que a tarefa pode ser árdua, mas não impossível.

Práticas de Leitura no Ensino Fundamental

A proposta deste capítulo é despertar o interesse dos alunos pela leitura, na medida em que ele progride no Ensino Fundamental. Para isto, a pedagoga e mestranda em Educação, Ana Gabriela Simões Borges, coordenadora geral do Instituto RPC e a jornalista e mestre em Educação Andressa Grilo Assagra, responsável pela produção de conteúdos do Projeto Ler e Pensar, indicam pequenas práticas que podem ser desenvolvidas para tornar a sala de aula um espaço alfabetizador e de encantamento para a leitura.

Quem mostra que isto é possível é Márcia Bíscaro Kaminski, professora de 4.ª série na Escola Municipal José Eurípedes Gonçalves, do município de Campina Grande do Sul. Para Márcia, despertar o gosto pela leitura e estimular a produção de textos entre seus alunos é tarefa cotidiana.

Literatura Infantil e Contação de Histórias na Escola

A leitura deve ser trabalhada de acordo com o gênero textual, por isso são diversas as maneiras de ler, assim como diversos são os textos e os objetivos de leitura. Pensando nisso, Elisa Maria Dalla Bona relaciona Literatura Infantil e Contação de Histórias na Escola, num ensaio relacionado à prática da professora Suely Rubbo Coelli, que atua na Escola Municipal Frei Tiago Luchese, no município de Bituruna. Utilizando a técnica da Contação de Histórias, Suely mescla emoção, razão e imaginação, literatura e contação de histórias, incentivando seus alunos a associar experiências e ideias.

Leitura Significativa e Contextualizada

Ler não é somente identificar símbolos, juntar letras, relacioná-las aos seus respectivos sons e repetir frases lidas em cartazes ou anúncios. Ler significa decifrar informações e reconhecer seus significados e interações com o mundo. Essa discussão é feita no livro por Benedito da Costa Neto, professor de Língua Portuguesa e de Literatura, consultor, crítico de arte e escritor.

Já a prática em sala de aula deste capítulo foi feita por Adriana Margarete Rolim da Silva Gonçalves, professora do contra-turno da Unidade de Educação Integral Abranches, em Curitiba. Com aulas dinâmicas e divertidas, Adriana usa a leitura de jornal para motivar o aprendizado entre jovens adolescentes e faz das suas aulas um exemplo de criatividade, interatividade e estímulo ao protagonismo.

Práticas de Leitura na Comunicação e na Educação

Não há como interpretar uma informação ignorando a forma como a mesma é percebida pelo indivíduo receptor, suas referências e relações sociais. Toda comunicação pressupõe um receptor capaz de desvendar mensagens, promover elaborações culturais, e chegar à construção de relações entre a informação a que tem acesso ao seu próprio universo social. Quem discute o tema neste capítulo é a doutoranda em Educação Marlei Gomes da Silva Malinoski, professora da Secretaria Estadual de Educação do Paraná e da Universidade Tuiuti do Paraná. O tema é visto sob a ótica da professora e coordenadora da Unidade de Educação Integral Contraturno Dr. Osvaldo Cruz, em Curitiba, Mary Lucia Medeiros Baldança.

Leituras, Literaturas e Escola

Este capítulo é dedicado à análise comparativa entre o texto verbal e o texto literário, indicando que há uma relação entre o verbal e o literário que precisa ser compreendida e trabalhada no ambiente escolar. Catia Toledo Mendonça, doutora em Estudos Literários e professora universitária, teoriza sobre o tema; a prática é de Expedita Estevão da Silva, da Escola Municipal Augusto Staben, de Campina Grande do Sul.

Ciberleitura

Como e por que incentivar a leitura em ambientes virtuais? Como contribuir para a formação de cidadãos críticos e participativos, lançando mão dos recursos disponíveis no ciberespaço? Estas e outras dúvidas são respondidas por Márcia Silva Di Palma, mestre em Educação e professora universitária. Para ilustrar, eis a experiência da professora Sonia Maria Alves Domingues, da Escola Municipal Paulo Freire, de Curitiba. Veterana no uso do jornal impresso como recurso pedagógico, há dez anos ela desenvolve atividades utilizando esse instrumento como apoio às suas aulas. Recentemente, passou a trabalhar também com o jornal em plataforma eletrônica e revolucionou a utilização da sala de informática da escola.