segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Escolas substituem dever de casa por tempo de leitura. Funciona?


Distrito escolar nos Estados Unidos adotou a prática com base em indícios de que a leitura livre é melhor do que as tarefas


Alunos de ensino primário em um distrito escolar da Flórida terão uma bem-vinda – mas controversa – nova política quando retornarem para a escola no ano letivo que começa no próximo mês: nada de lição de casa tradicional.

Eles terão que fazer outra coisa para ajudá-los academicamente: ler por 20 minutos todas as noites.

Heidi Maier, nova superintendente do distrito de escolas públicas  do condado de Marion, na Flórida, formado por 42 mil estudantes, disse em uma entrevista que ela tomou a decisão com base em uma pesquisa sólida acerca do que funciona melhor para aumentar o desempenho acadêmico dos alunos.

Isso pode parecer óbvio, mas no mundo da educação, os decisores políticos são notáveis por criar muitas políticas sem saberem e/ou se importarem com as evidências das melhores pesquisas.

A política será aplicada a todos os alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental no distrito – cerca de 20 mil – mas não valerá para os demais alunos de ensino fundamental e médio. Maier, uma especialista em leitura que começou a liderar as escolas de Marion em novembro, depois de atuar como professora de licenciatura no College of Central Florida, disse que está baseando sua decisão em uma pesquisa que mostra que lição de casa tradicional nos primeiros anos escolares não melhora o desempenho acadêmico, mas a leitura – e ler em voz alta – sim.

Uma análise muito citada de uma pesquisa sobre o tema, publicada em 2006, constatou que lição de casa no primeiro ciclo do ensino fundamental não contribui para ganhos acadêmicos e tem apenas um efeito moderado para estudantes mais velhos em termos de melhorias de desempenho acadêmico. Apesar da lição de casa ser uma das questões mais controversas na educação básica, não existe nenhum estudo experimental sobre os possíveis efeitos da prática.

Mas especialistas dizem que a pesquisa é clara quanto aos benefícios da leitura diária, com estudantes escolhendo seus próprios livros, lendo em voz alta e escutando um adulto fluente ler para eles.
Maier citou o trabalho de Richard Allington, especialista em aquisição de leitura, que pesquisou e escreveu extensivamente sobre como ensinar os alunos a lerem.

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“A qualidade da lição de casa é tão pobre que simplesmente fazer as crianças lerem em substituição a lição de casa, com leituras selecionadas por elas mesmas, é uma alternativa poderosa”, diz Allington. “Talvez alguns tipos de lição de casa possam aumentar os ganhos acadêmicos, mas esse tipo de lição é incomum em escolas dos EUA.”

Maier diz que os estudantes poderiam selecionar o seu próprio material de leitura e teriam ajuda de professores e bibliotecas escolares. Para as crianças que não têm um adulto em casa para ajudá-las a ler – os mesmo alunos que não tinham um adulto em casa para auxiliá-los com lição de casa tradicional – seriam disponibilizados voluntários, audiolivros e outros recursos.

Maier conta que teve um retorno positivo dos pais e professores, muitos dos quais aplaudiram a decisão, mas alguns são céticos. “Nós precisamos deixar a nossa mensagem clara e explicar por que isso é benéfico”, disse, acrescentando que em breve serão realizadas assembleias para os pais.

Lição de casa tem sido uma questão controversa para educadores e famílias por mais de um século. No final do século XIX, um herói da Guerra Civil Americana que se tornou membro do conselho escolar, Francis Walker, acreditava que lição de casa de matemática prejudicava a saúde das crianças e levou o conselho a bani-la como parte de uma febre nacional contra a lição de casa. A Ladies’ Home Journal, uma revista do período voltada para mulheres, chamou a lição de casa de algo “bárbaro” e muitos educadores disseram que essas tarefas causariam condições nervosas e doenças cardíacas em crianças, que se beneficiariam mais em brincar ao ar livre.

A lição de casa, é claro, passou a ter importância na educação – com crianças de 3 e 4 anos agora participando – e, hoje, defensores dizem que ajuda a fixar informações na memória das crianças e as ensina a estabelecer uma rotina.

O distrito de Marion se juntará a um pequeno grupo de escolas e distritos cujos líderes decidiram trocar a lição de casa tradicional por leitura diária nas primeiras séries. Apesar de não terem resultados definitivos, educadores apontam que as notas em avaliações e outras aprendizagens não foram prejudicadas.

Tradução: Andressa Muniz

domingo, 6 de agosto de 2017

E viveram com livros para sempre. Como criar um leitor

Catarina Homem Marques   


De pequenino, torce-se o pepino e também se começa a gostar de livros. Basta que os pais leiam aos bebés – até receitas –, que a leitura se faça em família e que todos se deixem levar pelos livros.

Nem todas as histórias têm de ter um final feliz para serem bonitas, nem sequer as histórias que se contam às crianças, mas o final feliz para os pais que querem que os filhos leiam é que eles comecem mesmo a gostar de livros. E isso, já que não é uma capacidade que nasça com as crianças, é algo que se pode – e deve – trabalhar, como afirmam Pamela Paul e Maria Russo, especialistas em literatura infanto-juvenil do New York Times, num artigo cheio de dicas para as famílias.

Não é apenas um capricho – está mais do que comprovado que os livros contribuem para o desenvolvimento das crianças, e que são também aliados saudáveis para a vida adulta. É por isso que se contar um conto deve mesmo acrescentar um ponto, e mais um ponto, e mais um ponto, até que a leitura seja um elemento de proximidade familiar, uma atividade enriquecedora para todos e, mais importante, um momento feliz.

Os bebés dormem, comem, choram… e gostam de livros


Há aquela imagem dos filmes em que uma mulher grávida embevecida põe os auscultadores em cima da barriga para o filho começar logo a ouvir música. E faz sentido. Os bebés reagem a estímulos sensoriais e esses estímulos contribuem para o desenvolvimento das suas capacidades. O que significa que – embora o bebé possa não mostrar grande entusiasmo quando está a acontecer – também faz sentido que os pais leiam para os filhos desde as primeiras fraldas.

“Como não se nasce leitor, é necessário guiar e acompanhar a criança, ao longo do percurso, desde a descoberta do pré-leitor até à sedimentação da leitura. O mergulho progressivo nos livros constituirá, decerto, um desafio apetecível porque as crianças são, por natureza, curiosas e a curiosidade é motor das aprendizagens ao longo da vida”, explicam os responsáveis pelo Plano Nacional de Leitura ao Observador.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária." Álvaro Magalhães, autor de livros infantis

Nesta primeira fase, as boas notícias é que os pais nem sequer têm de ler histórias com sentido: podem ler o livro que já estavam a ler antes sobre a II Guerra Mundial, um manual de instruções para alguma máquina que estava a dar trabalho ou a receita de um bolo para o jantar. O importante é o som da voz dos pais, a cadência típica da leitura e que as palavras sejam dirigidas para o bebé.

“Em nenhum genoma humano está presente uma inclinação para os livros. O que se sabe é que um leitor – tal como um escritor, ou um artista em geral – descobre-se quando acende o seu fogo interior, que a escritor Laura Esquível comparou a uma caixa de fósforos imaginária. Segundo ela, cada um de nós traz no interior essa caixa de fósforos e, para acendê-los, é necessário um prato apetitoso, uma companhia agradável, uma canção, uma carícia, uma palavra. Mas a chispa varia de pessoa para pessoa, e cada um tem de descobrir os seus detonadores… a tempo, ou a caixa de fósforos humedece e nunca poderá acender um único fósforo”, diz Álvaro Magalhães, autor de dezenas de livros para crianças que já foi integrado na lista de honra do prémio internacional Hans Christian Andersen.

Os outros sentidos também podem ajudar nesta detonação. Mesmo que o bebé interrompa a leitura para puxar as páginas ou comece a fazer sons em resposta aos sons que está a ouvir, não faz mal. Este é o tipo de leitura em que os pais têm de estar disponíveis para a interrupção. E até há livros cheios de texturas que podem ajudar. Tal como ajuda ter tempo e paciência.

“O ouro da literatura sempre foi o tempo, e é cada vez mais isso. Por isso é que a nossa livraria é afastada de um local de passagem. Se é para virem até aqui, é mesmo para escapar à rotina. E se há uma obrigação que os pais têm, desde que os filhos são muito pequenos, é de cuidar da curiosidade dos filhos, e a leitura faz parte disso. Só que a leitura não se faz apenas sentado com um livro na mão. Tecnicamente, temos de transformar a leitura num jogo que se realiza em diferentes dimensões, que é um universo comum em que a palavra abre espaço para dança, música, movimento e tudo o que quisermos”, explica Mafalda Milhões, responsável pela livraria Bichinho de Conto, em Óbidos, a primeira que abriu em Portugal dedicada apenas ao livro infanto-juvenil.


© Getty Images/iStockphoto 

A leitura é para ocupar a casa toda. E a família.



Para criar um leitor é preciso ser um leitor. E isto não implica que o serão da família tenha de incluir sempre um debate profundo sobre literatura russa ou sobre poesia japonesa do século XIX. Acontece apenas que, ao partilhar leituras com as crianças desde cedo, ao tornar-se uma atividade que se faz em conjunto – o que acontece naturalmente quando as crianças ainda não sabem ler sozinhas –, os livros começam a ficar associados à voz dos pais e a um sentimento positivo de proximidade.

“Infelizmente, fala-se muito em leitura sem falar em comunicação. E nisso a família tem um poder que não tem a escola, é a melhor incubadora para um leitor, para abrir horizontes e fazer ligações”, diz Mafalda Milhões.

Há pequenos truques para ir expandindo esta sensação e para a prolongar nas diferentes fases de crescimento da criança: em vez de ler para a criança só à noite, antes de deitar, é importante arranjar tempo para ler em outras alturas do dia – e, milagre, isso vai fazer também com que a criança abrande; transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes – nem tem de ler sempre livros que deteste, nem a criança tem de gostar das caretas que os pais fazem ao ler e pode interromper a qualquer momento; não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria; ter livros espalhados pela casa, em vários sítios, que possam a qualquer momento transformar-se num ponto de interesse e num fator de distração; ir associando os livros e a leitura independente a um ato de maturidade – também dando o exemplo – sem provocar uma quebra abrupta na possibilidade de se continuar a fazer a leitura em conjunto.

“Há quem leia porque aos dez anos teve uma pneumonia e para matar as horas de aborrecimento não lhe ocorreu melhor coisa do que ler Stevenson. Até hoje. O curioso é que todas as pessoas, sejam ou não leitoras, podem falar da sua genealogia como leitores ou não-leitores, sempre com referência a uma contingência ou um mero acaso. Ou seja, o ato de ler não nasceu quase nunca de um ato puro de vontade ou da falta dessa vontade. Foi sempre a resposta a uma situação. Convém então repeti-lo: chega-se à leitura graças a um golpe de dados, quer dizer, a encontros e desencontros ocasionais”, explica Álvaro Magalhães.

Truques para incentivar a leitura nos mais novos

  • Ler em diferentes alturas do dia, para além da hora de deitar;
  • Transformar a leitura numa atividade interessante para as duas partes;
  • Não fazer da leitura uma obrigação ou um castigo, mas sim um momento de brincadeira e alegria;
  • Ter livros espalhados pela casa.
E se os pais não são leitores, porque perderam o interesse pelos livros ou porque nunca encontraram esse golpe de dados, podem ser as crianças a servir de inspiração. “Há algumas famílias que não sabem mesmo fazer isto, mas podem aproveitar para seguir as crianças. Os pais têm de ter coragem para essa predisposição, para aprender isso com os filhos”, diz Mafalda Milhões. Uma ideia que Álvaro Magalhães completa: “No meu livro O Brincador há uma epígrafe que é todo um programa de vida, dois versos de Carlos Queiroz: ‘Menino que brincas no jardim / Tu sim, podias ser um Mestre de mim.’ Eles afirmam a minha fé numa inteligência infantil ainda não contaminada nem corrompida pelo mundo. Um dia perguntaram a Stanislavsky como se fazia teatro para crianças e ele respondeu: ‘Como se faz teatro para adultos, mas melhor’. É o que tento fazer, pois, tal como a concebo, a literatura para os mais novos é uma arte maior. Para comunicar com eles é preciso elevarmo-nos, e não o contrário – traduzirmo-nos, imbecilizarmo-nos, infantilizarmo-nos, que é o que mais se faz, infelizmente.”

Os livros também fazem coisas


Os livros fazem coisas. E não são só aqueles livros que têm pássaros que saltam em formato pop up, que emitem sons ou que servem, numa pilha, para levantar o monitor de um computador. Os livros são histórias, e são imagens, e levantam questões que se podem associar depois a outras actividades. “Se a criança gostou muito de um livro sobre animais, se calhar era divertido a seguir irem todos ao Jardim Zoológico com o livro”, exemplifica Mafalda Milhões.

Além disso, os livros são também uma desculpa para ir à livraria do bairro, ou para entrar numa biblioteca. Há cada vez mais atividades que se podem encontrar em diferentes livrarias: desde oficinas de ilustração, como aquelas que acontecem regularmente na It’s a Book, em Lisboa, a atividades pelo bairro ou oficinas de leitura entre avós e netos, como são comuns na Baobá, em Campo de Ourique, passando pela simples possibilidade de andar de baloiço ou ouvir uma história no grande quintal da Bichinho de Conto. É importante que a família fique atenta à agenda das livrarias nas proximidades ou tire um tempo para ir a uma que fique mais distante.

Na Bichinho de Conto, por exemplo, Mafalda Milhões sente que muitas vezes o espaço se transforma “no quintal da avó que muitas crianças já não têm isso”. “As crianças vêm aqui para ler, mas também para andar de baloiço, para brincar com as cabras, e isso tem tudo de literatura, não tem? Isto antes era só uma sensação que eu tinha, mas agora já é conhecimento técnico ao fim de muitos anos de trabalho: na leitura, o mais importante é a relação. Nós conhecemos os nossos leitores desde pequenos e agora vejo-os na faculdade e continuamos a fazer parte da vida uns dos outros.” É essa a relação que se pode criar com um livreiro, que pode ser importante a ajudar na escolha dos livros, e que se pode integrar nesta relação que se tem – ou não – com os livros.

“O PNL e outros programas institucionais da leitura só se preocupam com números e estatísticas. Do que precisamos é de leitores que contagiem leitores e sejam capazes de transmitir a sua paixão. Pequenas comunidades, círculos de leitura, clubes de leitores – que estão agora mais ativos com as redes sociais –, pessoas que partilhem e propaguem a sua paixão e a sua felicidade. Só quem verdadeiramente sente esse prazer e essa paixão a pode comunicar aos outros”, diz Álvaro Magalhães.

Outra coisa que os livros podem fazer é transformar-se numa prenda divertida para dar aos amigos que fazem anos, uma prenda que se pode escolher em família e que depois se pode aproveitar em conjunto com o aniversariante. E podem também ser uma coleção: as crianças gostam naturalmente de colecionar, e vão adorar ter uma prateleira ou uma estante só delas para irem arrumando os seus livros.

Quem tem medo dos livros maus?


Quem tem filhos pequenos e não tem uma música como “Despacito” em grande conta artística, já teve de morder a língua algumas vezes por ver como a criança dança ao ritmo do refrão e até já sabe alguns dos versos. Com os livros é um bocado a mesma coisa: se eles gostam de histórias com carrinhas que falam ou estão mais interessados em bandas-desenhadas da Marvel, não faz mal. Que atire a primeira pedra quem não começou com a Turma da Mônica antes de chegar a um Crime e Castigo.

Isto não significa que os pais não devem ir abrindo caminho para leituras diferentes, mostrando outras coisas, e que não devam – devem mesmo – gostar dos livros que estão a ler com os filhos ou a comprar para os filhos, mas também não devem ignorar ou diminuir os gostos da criança. E não devem ficar magoados se os filhos não mostrarem grande interesse por aquele clássico da literatura infantil que mudou a sua vida. Não é nada de pessoal.

“Não se conhece até à data que um livro da Patrulha Pata tenha feito mal a alguma criança. O que faz mal é se só houver isso. Claro que há narrativas mais inteligentes, mas é tudo uma questão de gramática de afetos. Pode ser um livro da Anita ou da Marvel, são livros que já formaram muitos leitores. O que é mesmo um erro é uma criança ler só livros e depois não ler as placas da cidade, não ler o que está no chão, não ler o que está no ar. A leitura tem é de estar em todo o lado e existir para muscular aquilo que é a nossa identidade”, acredita Mafalda Milhões.

Além disso, cada leitor é um leitor – caso contrário, todos os adultos tinham de adorar apenas o Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido. Com as crianças é igual. Algumas vão gostar mais de manga, outras vão preferir novelas gráficas, e há outras que só se vão interessar por não-ficção, ou seja, por aqueles livros sobre curiosidades científicas. E o que é bom é que é possível encontrar livros bons dentro de todos os géneros, e que normalmente essas fases evoluem para outras. Além de haver cada vez mais opções para garantir que se expõe as crianças à diversidade, e não apenas às histórias que confirmam aquilo que ela já sabe.

De acordo com o Plano Nacional de Leitura, esse é um dos trabalhos que cabe a um organismo estatal na altura de sugerir livros às escolas: “A sugestão de leituras do PNL assenta na ideia de que, sendo os gostos dos leitores, por natureza, muito díspares, a variedade de oferta tem de ser garantida. A diversidade permite orientar as escolhas e pautá-las por um grau progressivo de exigência. O PNL está consciente de que o mais importante e desejável é Ler+ e melhor, com competência e fluência, de todas as maneiras, em todos os suportes, tirando o máximo partido dessas leituras.”

Seja como for que se faz a lista, ou como se reúnem as sugestões de leitura, o importante é começar a virar as páginas. O resto vai acontecendo e vai seguindo para outros caminhos, como em qualquer boa história.

Fonte: Observador



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Parque Buracão inaugura Biblioteca Aberta

O projeto Biblioteca Aberta disponibiliza livros gratuitos à população

A Secretaria Municipal do Meio Ambiente em parceria com o AFS Intercultura Brasil, organização voluntária internacional de intercâmbio sem fins lucrativos, inaugurou nesta terça-feira, 25, às 10h, o projeto Biblioteca Aberta no Parque Buracão. 

O projeto tem a iniciativa dos voluntários da AFS com o apoio da Prefeitura e visa oferecer um espaço, na área externa da Secretaria do Meio Ambiente, para que a população possa retirar livros para leitura e devolvê-los posteriormente, com o objetivo de incentivar a comunidade ao hábito diário da leitura. 

A inauguração da Biblioteca contou com a presença dos escritores Caio Russo, Priscila Grecco, Totonha Lobo, Capitão Lincoln, voluntários da Organização AFS, representantes das escolas estaduais, entre outros envolvidos. 

Confira as fotos da inauguração: 



  Fonte: AssisCity

terça-feira, 4 de abril de 2017

Brasileiro não gosta de ler?

"Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado" Lya Luft

Publicado em 31/08/2009

Texto: Lya Luft

Lya Luft adverte: a meninada precisa ser seduzida. Ler pode ser divertido e interessante, pode entusiasmar, distrair e dar prazer


Para a escritora, o livro tem que ser um objeto comum dentro das casas, assim como era na sua quando pequena



Não é a primeira vez que falo nesse assunto, o da quantidade assustadora de analfabetos deste nosso Brasil. Não sei bem a cifra oficial, e não acredito muito em cifras oficiais. Primeiro, precisa ser esclarecida a questão do que é analfabetismo. E, para mim, alfabetizado não é quem assina o nome, talvez embaixo de um documento, mas quem assina um documento que conseguiu ler e... entender. A imensa maioria dos ditos meramente alfabetizados não está nessa lista, portanto são analfabetos - um dado melancólico para qualquer país civilizado. Nem sempre um povo leitor interessa a um governo (falo de algum país ficcional), pois quem lê é informado, e vai votar com relativa lucidez. Ler e escrever faz parte de ser gente.

Sempre fui de muito ler, não por virtude, mas porque em nossa casa livro era um objeto cotidiano, como o pão e o leite. Lembro de minhas avós de livro na mão quando não estavam lidando na casa. Minha cama de menina e mocinha era embutida em prateleiras. Criança insone, meu conforto nas noites intermináveis era acender o abajur, estender a mão, e ali estavam os meus amigos. Algumas vezes acordei minha mãe esquecendo a hora e dando risadas com a boneca Emília, de Monteiro Lobato, meu ídolo em criança: fazia mil artes e todo mundo achava graça.

E a escola não conseguiu estragar esse meu amor pelas histórias e pelas palavras. Digo isso com um pouco de ironia, mas sem nenhuma depreciação ao excelente colégio onde estudei, quando criança e adolescente, que muito me preparou para o mundo maior que eu conheceria saindo de minha cidadezinha aos 18 anos. Falo da impropriedade, que talvez exista até hoje (e que não era culpa das escolas, mas dos programas educacionais), de fazer adolescentes ler os clássicos brasileiros, os românticos, seja o que for, quando eles ainda nem têm o prazer da leitura. Qualquer menino ou menina se assusta ao ler Macedo, Alencar e outros: vai achar enfadonho, não vai entender, não vai se entusiasmar. Para mim esses programas cometem um pecado básico e fatal, afastando da leitura estudantes ainda imaturos.

Como ler é um hábito raro entre nós, e a meninada chega ao colégio achando livro uma coisa quase esquisita, e leitura uma chatice, talvez ela precise ser seduzida: percebendo que ler pode ser divertido, interessante, pode entusiasmar, distrair, dar prazer. Eu sugiro crônicas, pois temos grandes cronistas no Brasil, a começar por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos, além dos vivos como Verissimo e outros tantos. Além disso, cada um deve descobrir o que gosta de ler, e vai gostar, talvez, pela vida afora. Não é preciso que todos amem os clássicos nem apreciem romance ou poesia. Há quem goste de ler sobre esportes, explorações, viagens, astronáutica ou astronomia, história, artes, computação, seja o que for.

O que é preciso é ler. Revista serve, jornal é ótimo, qualquer coisa que nos faça exercitar esse órgão tão esquecido: o cérebro. Lendo a gente aprende até sem sentir, cresce, fica mais poderoso e mais forte como indivíduo, mais integrado no mundo, mais curioso, mais ligado. Mas para isso é preciso, primeiro, alfabetizar-se, e não só lá pelo ensino médio, como ainda ocorre. Os primeiros anos são fundamentais não apenas por serem os primeiros, mas por construírem a base do que seremos, faremos e aprenderemos depois. Ali nasce a atitude em relação ao nosso lugar no mundo, escolhas pessoais e profissionais, pela vida afora. Por isso, esses primeiros anos, em que se aprende a ler e a escrever, deviam ser estimulantes, firmes, fortes e eficientes (não perversamente severos). Já se faz um grande trabalho de leitura em muitas escolas. Mas, naquelas em que com 9 ou 10 anos o aluno ainda não usa com naturalidade a língua materna, pouco se pode esperar. E não há como se queixar depois, com a eterna reclamação de que brasileiro não gosta de ler: essa porta nem lhe foi aberta.  

quinta-feira, 30 de março de 2017

Como ler mais na era Netflix

Por Pâmela Carbonari 


Se você gosta de ler, está com uma pilha de livros muito bons à sua espera, mas não consegue fazer a fila andar, este post é para você.

Sempre desconfiei de leitores a jato.

“Ah, mas eu li Grande Sertão Veredas em uma noite”. Não, você não leu as 600 páginas de Guimarães Rosa em menos de 24 horas. Essa não cola, amigo. Você pode ter olhado para as 600 páginas, mas não leu. Ou melhor, pode até ter lido alguma coisa entre as 600, mas tenho minhas dúvidas sobre o que conseguiu processar da história de Riobaldo.

Não sou uma leitora a jato por princípios: quero que a leitura me dê a oportunidade de me apegar ao enredo, sonhar com os personagens, ter vontade de viajar para o local onde se passa a história, pesquisar sobre o autor, suas inspirações. Mas, admito, talvez um pouco do meu ceticismo seja inveja. No fundo, gostaria de ler 600 páginas em uma madrugada (se fosse em uma semana já ficaria realizada).

Quando descobri que a Agatha Christie costumava ler 200 livros por ano, minha primeira reação foi relativizar “ah, mas no início do século XX não existia internet”. (Segure o queixo: no Brasil, a média de leitura por pessoa é de 4,96 livros por ano, segundo a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil). Por supuesto que a rainha do mistério era e continuaria sendo uma leitora a jato com ou sem distrações pós-contemporâneas, porque dela eu não duvido – apesar de ter aprendido justamente com ela a desconfiar sempre. Mas para cumprir sua meta de leitura anual, é preciso ler quatro livros por semana. E se cada livro tiver em média 300 páginas, serão 1.200 páginas em sete dias, sendo 171 por dia. Difícil, mas humanamente possível.

Comecei a pensar no que costumo fazer no meu tempo livre. E por tempo livre leia-se tempo gasto no transporte público, na sala de espera do consultório, jogada no sofá enquanto espero minhas roommates saírem do chuveiro — não apenas o tempo livre institucionalizado como o domingo à tarde, as noites no bar ou as férias. Lembrei dos minutos em que desço a barra lateral do Facebook rumo ao nada, a sensação desesperadora de olhar para o relógio e ver aquele tempo resultar em absolutamente nada. É como se um dementador tivesse sugado aqueles instantes da minha vida. Irreversível.

E não se trata de procrastinação. Se deixa para depois a louça na pia, a fatura da luz, o relatório da faculdade, não se procastina um brigadeiro, um beijo, uma cerveja com os amigos. Se o hedonismo não é procastinável, por que a leitura deveria ficar para trás na lista de prazeres?

Eis aqui algumas dicas para ler mais mesmo quando incluem você em mais três grupos de WhatsApp, publicam as fotos de uma festa ou quando a Netflix atualiza a lista de filmes:

– Use os números a seu favor

Quem é você na fila da leitura: a Agatha Christie ou um brasileiro médio? Não há nada de errado na quantidade de livros que você decidir ler – já assumi aqui, com lágrimas nos olhos, não ser uma leitora a jato, então sem julgamentos.
Mas ter uma meta é um bom ponto de partida para conseguir cumpri-la. Se forem 24 livros em um ano, serão 2 livros por mês, um livro a cada duas semanas. E, assumindo uma média de 300 páginas por livro, equivale a 20 páginas por dia. Então saiba quantos momentos em um dia normal você realmente consegue ler: se for no transporte público e antes de dormir, estabeleça um número de páginas aproximado para cada uma dessas etapas.

É importante também conhecer seu tempo médio de leitura: caso você leia uma página a cada 2 minutos, vai levar 20 minutos para ler 10 páginas e 40 para concluir sua meta diária. Feito isso, tente fazer uma lista das suas leituras, assim você vê quantos faltam, se o seu método está dando certo e, no futuro, saber em qual ano você leu o quê. Não é porque você gosta de ler que algumas contas vão te matar. Prometo!

– Hierarquia

Se existe uma palavra na língua portuguesa que eu não gosto é essa, mas, em se tratando de hábitos de leitura, ela pode ser bastante útil.

Sabe aquela série que você não sabe por que continua assistindo? É boazinha, mas não se compara a Girls ou Game of Thrones. Pois é nessa série que você perde o tempo que poderia estar sendo aproveitado com boa literatura – ou nem tão boa assim (sou partidária de guilty pleasures, esse é assunto para um próximo post). Falando desse jeito parece um argumento que meus pais usariam quando me mandavam fazer tema de casa. Mas não é, e também não é uma competição livros versus televisão. É lógica pura, hierarquia de prazeres.

Você gosta de ler, certo? Há uma pilha de livros esperando por você? Esses livros são bons? Você quer ler todos ou a maioria deles? Então por que está perdendo tempo com enredo meia boca? Se existir uma boa razão, vá em frente. Se não, sugiro abrir um desses livros da pilha.

– Tecnologia a seu favor e o universo analógico também

Já faz um bom tempo que os livros deixaram de ser dispositivos absolutamente analógicos. E-books podem não ser uma unanimidade entre os leitores, mas são o suprassumo da praticidade literária e têm ótimas ferramentas de busca – uma benção para ler em idiomas que não dominamos ou buscar significados de palavras no nosso próprio idioma.

Mas e quando você está lendo um livro físico, de papel e se depara com uma palavra desconhecida? Saca o smartphone e busca. Simples, né? Mais ou menos. Quem é refém de notificações sabe que aquela desbloqueada de celular vai se multiplicar em olhar as contas no Facebook, Instagram, Snapchat, e-mail e se transformar em mensagens para sua irmã, para os amigos do trabalho e, talvez, virar até um “oi sumido”. A palavra desconhecida, coitada, fica atrás de tudo isso.

Se você tem consciência dessa condição inquieta, deixe a tecnologia de lado enquanto lê (aka sem Wi-Fi). Não tem por que não abrir mão da facilidade high-tech um pouquinho e recorrer ao dicionário em troca de um pouco de foco. Ler é uma atividade que exige atenção. Vai deixar uma corrente motivacional do grupo da família desconcentrar você?

– Amigo leitor

Amigo de verdade é amigo que lê junto.

Aliás, nem precisa ser tão amigo assim para ler em grupo – se for alguém que pensa diferente de você, melhor ainda. O importante é ler o mesmo livro e estar disposto a conversar. Porque literatura não é como matemática que cada um tem que chegar em um resultado comum ao fim da equação para estar correto. É o oposto disso, não existe certo e errado. É absorver o enredo de maneira distinta, sentir afeição por um ou outro personagem, perceber a construção da narrativa de formas diferentes e processar todo o conjunto de uma obra a partir de vivências muito particulares. É nessa subjetividade que mora a beleza da literatura. Dialogar, trocar experiências e impressões sobre o mesmo livro além de motivar a leitura, pode fazer você abrir os olhos para coisas que não perceberia se lesse sozinho.